Sociedade

«Estamos todos a viver com muito sufoco»

Escrito por Jornal O Interior

Higienização como nunca, máscaras, distância de dois metros entre pessoas e limpeza constante. É assim o regresso aos restaurantes. Na Guarda, como por todo o país. Faltam os clientes. Todavia.

No centro da Guarda, o “Caçador” é toda uma instituição gastronómica, quase um paradoxo, uma marisqueira, longe do mar, que conquistou desde 1985 um lugar de referência entre os apreciadores. João Óscar Rodrigues com «muito esforço e dedicação» conquistou os mais exigentes apreciadores de marisco. Agora é Mónica Rodrigues, a filha, que regressou há cinco anos depois de estudar e trabalhar entre Beja, Algarve e Lisboa, para continuar a senda da família. O novo coronavírus interrompeu o trabalho «árduo de muitos anos», mas não irá implicar mudanças onde tudo acontece: na cozinha. «As muitas deslocações que o meu pai faz para termos sempre marisco fresco e termos um excelente fornecedor permite-nos ter o melhor produto», assevera a jovem, segundo a qual o «marisco fresco e a confeção» fazem com que «muitos clientes nos digam que temos melhor arroz de marisco que as marisqueiras do Algarve».
Perante a pandemia e as novas regras de higienização, Mónica Rodrigues mostra-se otimista e bem preparada para o regresso dos clientes, ainda que considere que «não vamos voltar à normalidade», mas «nesta fase» de reabertura «contamos com os clientes portugueses que conhecem bem a nossa qualidade». «Não vamos ter os espanhóis», pois as fronteiras vão continuar encerradas, mas, «aos poucos, as coisas voltarão ao normal».
Sobre os dois meses em que estiveram encerrados, a filha do fundador do “Caçador” refere que a empresa recorreu ao “lay-off” que «nos permitiu algum desafogo, pois os custos são muitos» e «menos mal que não temos de pagar renda, pois a casa é propriedade da família, mas há muita despesa e aqui trabalham onze pessoas», sublinha a empresária. «Foram dois meses muito complicados» e «de angústia» por não saberem o que viria depois. «Felizmente a nossa casa tem fundo de maneio e por isso resistimos», acrescenta, enquanto recorda que «percebemos em março que não ia ser fácil» e, agora, «estamos todos a viver com muito sufoco».

«Vamos reabrir responsavelmente», afirma, referindo que «o balcão fica inutilizado», não servindo nessa zona, e houve a redução de mesas nas duas salas do restaurante. «Eu vou ficar à porta» para fazer a gestão da entrada das pessoas, «a saída será pelo outro lado» e «vamos continuar a fazer “take away”», um serviço iniciado há duas semanas: «Nos primeiros dias teve grande sucesso, pois as pessoas estavam ansiosas», revela Mónica Rodrigues. O “novo rosto” do “Caçador” explica que vai «haver muito cuidado para que as pessoas possam disfrutar da refeição esquecendo o período em que vivemos». Mónica Rodrigues acrescenta que diariamente vão tirar a temperatura dos colaboradores e utilizar os meios recomendados pela AHRESP. «A redução do IVA e outras medidas de apoio deviam ser implementadas», sugere, até porque «temos feito um investimento brutal» para a marisqueira se adaptar com «menos lugares», «mantendo os preços» e procurando dar «o melhor» aos clientes. Para a gerente da conhecida marisqueira, as dificuldades do sector «vão sentir-se nos próximos meses», mas «esperamos que os clientes estejam com saudades de nós» conclui Mónica Rodrigues.

«Só com turistas portugueses não vai ser fácil sobreviver»

Depois do confinamento, o “Nobre, vinhos & tal” regressa com a convicção de «que as pessoas estão com vontade de sair», diz Pedro Nobre, o proprietário do restaurante e “wine bar”, junto à Sé da Guarda. Porém, o empresário está preocupado, pois «as pessoas têm receio e nota-se». «Não sei se as coisas vão correr bem» depois de «dois meses a recorrer ao fundo-de-maneio para fazer face às despesas». «Foram muitos os custos a pagar sem receitas», lamenta-se. «É muito difícil perspetivar o que irá ocorrer», considera Pedro Nobre, explicando depois que a “Nobre, vinhos & tal” com a reabertura vai também fazer “take away” com o que está «moderadamente otimista». A redução de lugares não o preocupa, uma vez que «temos quatro salas», não «me parecendo que tenhamos de perder 50 por cento da lotação».
O empresário acrescenta que pondera a possibilidade de aumentar o aproveitamento do espaço exterior «utilizando a esplanada com vista para a Sé» e analisa outras possibilidades, sempre «cumprindo as regras da DGS» e a higienização prevista. Para Pedro Nobre, o problema maior será a falta de turistas, «pois grande parte da nossa faturação era feita com visitantes espanhóis» e «mesmo confiando que os portugueses venham», a falta «de pessoas na Guarda vai ser um problema enorme», receia.

«Estamos todos numa situação muito complicada»

O levantamento das medidas de confinamento e a reabertura dos restaurantes, depois de dois meses, obrigou o setor a um grande investimento, nomeadamente em equipamento e produtos de higiene e no cumprimento das regras, até porque, como refere Pedro Nobre, «para os clientes se sentirem confiantes temos de dar confiança» e ter todos os cuidados «limpando constantemente» e cumprindo as regras que «são precisamente para dar confiança às pessoas».
Manuel Videira da Costa, do “Restaurante Videira”, na Guarda, apostou no serviço de refeições para fora e espera que as pessoas continuem a vir buscar comida, mas não está muito confiante de que «venham ao restaurante». O “chef” acredita que, «em breve, volte tudo ao normal», ainda que, «para já», não esteja «muito otimista». Também António João, gerente do “Combinado”, próximo do Colégio S. José, tem apostado no “take away” e confia que «a clientela regresse» enquanto recorda que antes havia pessoas e «agora não se vê ninguém». Apesar das dificuldades que se adivinham, e enquanto «tentamos fazer o melhor que podemos», o empresário conta que o «serviço regresse ao bom caminho».
Na pastelaria “Colmeia”, na Rua Francisco dos Prazeres, Leonor Fonte mostra-se receosa, até porque «não tenho trabalho para a equipa que a empresa tem». A gerente da conhecida pastelaria, e que servia «muitas refeições para fora», lamenta a falta de apoios e confessa que com a «falta de prolongação do “lay-off” não sei o que fazer», pois «muitos serviços foram cancelados». Recorda, por exemplo, que sem casamentos, aniversários e outras festas, a faturação irá «baixar imenso» porque não venderá bolos como antes. E «a redução da lotação em 50 por cento» no estabelecimento implicará uma capacidade de atendimento reduzida, considera. Para Leonor Fonte, «estamos todos numa situação muito complicada».
A “Beija-Flor”, no Largo de São João (largo do antigo cinema), na Guarda, reabriu a cafetaria e o “quiosque” na semana passada, mas Vítor Pedrosa, o gerente, considera que «estamos num tempo de incerteza em que a situação é muito difícil». Os clientes começaram a regressar, «mas nada que se pareça com o tempo anterior à pandemia», constata o empresário.

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