Quarto minguante

Escrito por Fidélia Pissarra

Àquela hora, apenas meia dúzia de ébrios, desbarbados, povoam o centro da Praça. Entre palavras desgarradas, que não dão para montar uma conversa, discorrem sobre a noite e o futuro que, todavia, não amanheceu. Do cimo da catedral, as gárgulas lançam-lhes sorrisos de desdém, corroídos pelo tempo, sem que os jovens deem mostras de dar por elas. Ao fim e ao cabo não é o monumento que ali os atrai, apenas a possibilidade de poder urinar-lhe, se se der o caso. Se fosse como antigamente, quando eram poucos os imberbes que se podiam dar ao luxo de apanhar uma bebedeira e, muito menos, os que se atreveriam a passeá-la pelas ruas, as pedras da Sé podiam viver descansadas. Agora, não. Quando não são os das capas a apoquentá-las, são os das garrafas a enxovalhá-las. Nenhuma pedra, de nenhum monumento, deveria ter de passar por isto, gritam, provocando, imediatamente, o remoque das pedras dos derrubados edifícios circundantes. Pelo menos elas, apesar de caídas, não costumam ser alvo do álcool ressumbrado pelos jovens, e menos jovens, da noite. Isto acabou por enfurecer ainda mais as pedras da catedral. Porém, em vez de alimentar a difícil discussão, remeteram-se ao mutismo próprio das coisas mortas. Efetivamente, à semelhança de quase tudo o que ali existe, é esse o seu estado e só não estão enterradas, como o rei da estátua do canto, porque não há onde o fazer. Se houvesse, estavam e talvez tivessem também direito a uma coroa de flores no dia da cidade. Como não estão, nem direito a isso têm. O que, mesmo amofinando-as, também de nada serviria se tivessem. Porque, como bem se sabe, nunca as flores ressuscitaram mortos, nem os mortos deram pelas flores com que os possam querer ressuscitar.

Alheia a todas as vicissitudes, humanas e graníticas, da Praça, a Lua, mesmo mal se deixando ver, por entre os pináculos da catedral, acaba por chamar a atenção de um dos jovens ali encalhados. Muito provavelmente, à procura de inspiração e perdão divinos, o rapaz erguera os olhos para o céu e acabou por dar com ela: “olha, a Lua está em fase minguante”. Todos os olhos se viraram para cima, mas já não a viram. Fosse por estar com pressa, fosse por se ter escondido atrás de alguma nuvem, a Lua tinha desaparecido. O que, nela, nem é de estranhar. Essas coisas só se costumam estranhar quando acontecem na Terra e com os da Terra. Mas como também não é costume que alguém ande a olhar para baixo, à procura de inspiração e perdão divinos, é muito improvável que alguém dê pelo que por aqui, sem sequer dizer água vai, desaparece. O que, dado que os que preferem ir de mãos dadas para o inferno são sempre muitos mais dos que os que não se importam de ir sozinhos para o céu, até se compreende. Só divinalmente é que se costuma olhar para o céu. Para o resto, para o que realmente nos devia interessar, parece que bastam as coisas da Terra e dessas, como as pedras da Praça bem sabem, a não ser pelo abstracionismo floral ou eventual polaciúria, são cada vez menos os que se interessam.

Sobre o autor

Fidélia Pissarra

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