A surpreendente aproximação entre Putin e Trump vem confirmar a pior das suspeitas e trazer um verdadeiro pesadelo ao mundo. Quando Trump afirmava que ia acabar com a guerra havia esperança de um diálogo com a Rússia, algum tipo de aproximação necessária para promover alguma forma de acordo, mas jamais que os Estados Unidos deixassem cair a Ucrânia. É isso que está a suceder. As afirmações de Trump são uma traição aos valores ocidentais. O discurso agressivo e inapropriado do presidente americano mata o sonho de resistência ucraniana. Três anos depois, ainda que custe reconhecê-lo, Vladimir Putin é o vencedor do conflito na Ucrânia. Zelensky é o resistente cujo plano de vitória foi derrotado – milhões de mortes depois, o plano não resistiu à fatal realidade. Pior, com a vitória de Trump o apoio americano à Ucrânia pode acabar e o plano implica a capitulação ucraniana.
A reunião entre os EUA e a Rússia, para discutir o futuro da Ucrânia, não convidando a Ucrânia para a mesa das negociações, é inacreditável e evidenciou o novo posicionamento americano. Mas muito pior foram as declarações posteriores do presidente Trump, que chegaram ao extremo de considerar ilegal a presidência de Zelensky.
A Europa, depois do erro que foi a cimeira de Paris do dia 17, entre os «países mais importantes», procura unir-se e reagir a um “diktat” em que a paz é discutida a dois, entre Estados Unidos e Rússia. Por isso, fizeram bem o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão, Ursula Van der Leyen, terem ido a Kiev reiterar o apoio europeu aos ucranianos. Porém, esta posição tem consequências. Desde logo o distanciamento da Europa em relação aos Estados Unidos; depois a necessidade de investir na Defesa europeia, com o aumento de recursos humanos e militares, com a duplicação da dotação orçamental; maior investimento comunitário no apoio à guerra – a Europa avança com mais pacotes de sanções e vai disponibilizar um novo pacote de assistência financeira no valor de 3,5 mil milhões de euros, e o Reino Unido anunciou um novo pacote de ajuda militar no valor de 150 milhões de libras (179,7 milhões de euros) e que inclui drones, tanques e sistemas de defesa aérea. E, para além dos custos gigantescos da guerra, todos os países irão sentir os custos financeiros com a escalada da inflação, que será um flagelo que irá continuar a empobrecer toda a Europa. Mas se a guerra é cara, a paz temos de a pagar todos e não haverá paz sem um compromisso coletivo em que todos temos de ser parte. A solidariedade com a Ucrânia pode custar o bem-estar europeu, mas salvar os nossos valores e a nossa vida.
Se ao longo destes três anos houve muitos momentos em que o Ocidente acreditou no heroísmo dos ucranianos para resistir à força bruta da Rússia, o tempo vem confirmar que o poderio russo pode permitir-se a esperar o desgaste do adversário. Milhões de mortos depois, a Rússia ganhou mais 20% de território ucraniano, impõe as suas regras e fica à espera da rendição ucraniana – a guerra está num impasse, mas o que temos é o início de uma nova ordem mundial. É o fim da ordem mundial nascida das cinzas do pós-guerra. No dia do terceiro aniversário da invasão, a Rússia e a China reforçaram a sua “aliança sem limites” e Donald Trump entregou a América a uma união das três maiores potências. Como concluiu Amílcar Correia (“Público”), o plano de Trump é previsível: um cessar-fogo, acordo de paz com cedências de território, eleições e exploração dos recursos. A Europa que pague a reconstrução.



