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Recado aos candidatos à câmara

O Caderno Negro

Há coisas que só acontecem na Guarda. Contava O INTERIOR, há dias, que as próximas autárquicas são as mais concorridas de sempre. O que não deixa de ser extraordinário. Numa altura em que o país está embrulhado em enormes dificuldades políticas e financeiras – que vão traduzir-se, nos próximos quatro anos, numa diminuição das transferências de dinheiros do governo para as câmaras -, parecem não faltar candidatos ao poder. Os eleitores esperam, desde logo, que os cabeça-de-lista estejam conscientes das limitações que se avizinham. Mais do que ambicionarem passar por uma experiência autárquica. Será cada vez mais difícil manter a contabilidade equilibrada. Deixará de haver dinheiro para fazer obra e até para a gestão corrente. Não será possível fazer contratações ou grandes adjudicações. Será cada vez mais difícil captar investimento para o interior ou travar a desertificação, o desemprego e o envelhecimento demográfico. Chegou o tempo das decisões difíceis para as autarquias.

Ninguém diria, atendendo ao ambiente político dos últimos meses na Guarda. Lutas desenfreadas pelo poder, amuos, desvinculação de partidos, sondagens de opinião, impugnações. Tudo culpa da escolha dos candidatos à Câmara. Na Guarda parece já nem haver respeito pelos próprios partidos. Quanto mais pelos eleitores – transformados em peças irrelevantes num jogo que é de poder, quando deveria ser de serviço público e de representação dos interesses coletivos da cidade e da região (uma das mais fragilizadas num país também fragilizado).

O último desenvolvimento da novela aconteceu já esta semana, com o PS a anunciar a impugnação das listas da candidatura “A Guarda Primeiro”, liderada por Virgílio Bento. José Igreja, o candidato à Câmara, diz que as assinaturas não cumprem a lei. O que haverá de tão grave e ilegal que justifique a impugnação de um adversário, pergunta o eleitor guardense? Porque só poderá tratar-se de qualquer coisa de grave: afinal, quem concorre a um cargo político fá-lo no respeito pelas regras democráticas, que passam pela aceitação de outros concorrentes. Depois esgrimem-se argumentos, propõem-se projetos e deixa-se o eleitor escolher a melhor alternativa. José Igreja, citado no site de O IINTERIOR, já explicou o que de tão grave se passa, afinal, com a candidatura do adversário Virgílio Bento: «As assinaturas são nulas porque os proponentes não conheciam inequivocamente os candidatos daquele movimento quando subscreveram propositura». E é isto.

Mas o filme começou há meses. Em abril, a comissão política concelhia do PSD demitiu-se em bloco por discordar da escolha de Álvaro Amaro para candidato do partido à Câmara. O assunto foi de tal forma fraturante que até houve sondagens pelo meio. A concelhia apoiava Manuel Rodrigues, que chegou mesmo a ser anunciado como candidato oficial do PSD, e a escolha da distrital passava por Álvaro Amaro.

Por não ter sido escolhido, Manuel Rodrigues desvinculou-se do PSD e decidiu apoiar a candidatura de Virgílio Bento, que era do PS. É natural que o eleitor esteja confuso. Na Guarda já nem a vontade dos partidos parece ser respeitada. No Partido Socialista, o processo de escolha para as autárquicas não foi muito diferente. Virgílio Bento, vereador na Câmara, ficou sem pelouros em maio, depois de se ter desvinculado do PS. Joaquim Valente entendeu que, com essa decisão, o vereador não merecia confiança política (o que é mais importante: governar a Guarda, cuidar dos interesses do concelho e das pessoas ou afastar vereadores de pelouros por causa de questões partidárias?). Entretanto, o candidato oficial do PS é José Igreja. E Virgílio Bento também concorre, como independente e apoiado por… Manuel Rodrigues. Faz sentido: juntos, poderão partilhar ideias sobre o desgosto de terem sido preteridos pelos próprios partidos.

Enquanto os partidos têm estado concentrados na escolha dos candidatos, tem faltado o essencial: o debate de ideias e a apresentação de propostas para o concelho. É sabido que nos últimos anos não se passou rigorosamente nada na Guarda. Também por isso, seria desejável maior serenidade e mais seriedade: há muito trabalho pela frente. E nunca as pessoas da Guarda precisaram tanto de uma liderança forte. Como se já não bastasse, a candidatura oficial do PSD ainda está tremida por causa da limitação de mandatos. Álvaro Amaro, que é o único candidato à Câmara da Guarda com experiência e peso político em Lisboa, foi impedido de prosseguir, já esta semana, pelo tribunal local. O caso não é único a nível nacional e o Tribunal Constitucional terá de se pronunciar na primeira semana de setembro.

Numa altura tão difícil do ponto de vista político, económico e social para o país, o mínimo que os cidadãos podem pedir aos agentes locais é honestidade e convergência de esforços. A política tornou-se nisto: uma corrida desenfreada pelo poder. Quando deveria ser serviço público. A Guarda merecia mais e os eleitores precisam de mais.

Só podemos esperar o pior para a cidade e para a região.

Por: Rosa Ramos

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