Reportagem Sociedade

Uma campanha solidária criada à distância

Escrito por Jornal O Interior

Começou com a produção de viseiras, mas depressa se tornou em algo maior. “Fazer Mais Por Todos” é o nome do movimento que, mesmo à distância, uniu entidades da Covilhã e Fundão pelo mesmo objetivo: angariar fundos para produzir e doar material de proteção individual aos profissionais de saúde.

Estar em casa não é motivo para não ajudar quem precisa. Mesmo estando confinados entre quatro paredes «podemos e devemos “Fazer Mais por Todos”».

Foi com esta convicção que a Associação Académica da Universidade da Beira Interior (AAUBI) se aliou à empresa WD Retail, sediada no parque industrial do Tortosendo (Covilhã), para criar e aperfeiçoar um modelo de viseira de proteção para ser utilizado por profissionais de saúde em ambiente hospitalar. «Já tínhamos um projeto [com a WD Retail] para os funcionários universitários trabalharem com eles. Depois surgiu a notícia que estariam a fazer viseiras caseiras, que ainda não tinham os testes necessários para serem usadas em ambiente hospitalar», refere Ricardo Nora, presidente da AAUBI, que canalizou esforços para aperfeiçoar este meio de proteção. «O próprio protótipo foi feito em colaboração com a Faculdade de Ciências da Saúde e com a UBI Medical para testar todos os requisitos e poder ser usado em ambiente hospitalar», diz o dirigente estudantil.

Foi então criada «uma viseira com as principais características identificadas pelos profissionais de saúde, nomeadamente o ser completamente tapada na zona superior para dar maior proteção, ser muito leve e permitir que seja esterilizada e reutilizada», adianta Hugo Nobre, sócio-gerente da WD Retail, que está agora a trabalhar para «produzir em escala» estas viseiras. A empresa, que se dedica aos produtos de merchandising e materiais gráficos para marcas, redirecionou a sua atividade neste tempo de pandemia. «Isto é uma tecnologia diferente. O arranque é um bocadinho mais lento, porque obriga à produção de moldes, mas quando iniciarmos a produção a capacidade andará nos cinco a seis mil unidades por dia», estima o empresário, segundo o qual a parte superior da viseira é feita na China, «mas vem tudo por avião e rapidamente se consegue começar a distribuir pelo país».

A previsão é que dentro de «15 dias a três semanas» seja possível entregar 2.500 viseiras gratuitamente aos profissionais de saúde dos centros hospitalares da Covilhã e Coimbra, que manifestaram desde o início a grande necessidade destes produtos.

Solidariedade mobiliza entidades locais

Ricardo Nora, Presidente da AAUBI

O sentimento de solidariedade vigente entre a comunidade estudantil covilhanense foi, em grande parte, o que deu o mote à iniciativa, de acordo com Ricardo Nora. «Numa fase inicial, o objetivo era demonstrar a solidariedade dos estudantes, mas depois acabámos por abrir mais este horizonte a toda a comunidade», declara o presidente da AAUBI. O desenvolvimento das viseiras deu assim origem a um movimento mais abrangente denominado “Fazer Mais Por Todos”, que já conta com a participação de diversas entidades locais. A iniciativa pretende, não apenas oferecer viseiras, mas também máscaras, luvas e desinfetantes aos profissionais de saúde que precisem.

Na lista de parceiros figuram a Câmara do Fundão, o Fab Lab Aldeias do Xisto (Fundão), a Junta de Freguesia do Tortosendo, a empresa Black Sheep Retail Products, a STAR Junior Enterprise, a Beira Escrita, o Centro Hospitalar Universitário Cova da Beira (CHUCB) e a UBI – além da AAUBI e da WD Retail. «Provavelmente há já mais de cem pessoas envolvidas» na campanha, segundo o responsável, que explica que o objetivo é, «numa primeira fase», a angariação de fundos para o financiamento das viseiras. «Queremos também captar entidades que, de alguma forma, possam alavancar e investir para conseguirmos custear e produzir cada vez mais viseiras por dia para conseguirmos abastecer ainda mais os centros hospitalares», acrescenta o dirigente estudantil.

No site www.fazermaisportodos.pt já é possível fazer doações, através de MB Way, Paypal ou de transferência bancária para o IBAN PT50 0035 0270 00018030530 28.
Entretanto, e para rentabilizar o tempo de finalização do primeiro lote de 2.500 viseiras, o movimento está a recolher informações acerca das necessidades dos hospitais e a tratar de questões burocráticas, sendo as tarefas dividas consoante as ferramentas de cada um. «A Beira Escrita está a apoiar na legalização de todo o projeto, a empresa start-up da UBI está a ajudar no desenvolvimento de software…», exemplifica Hugo Nobre. «Isto foi tudo muito gerido à distância porque cada um estava em sua casa. Até gerou um slogan que incluímos na campanha, que é “mesmo em casa podemos e devemos fazer mais por todos”, e foi um bocadinho isso que aconteceu», ressalva o empresário.

Sofia Craveiro

 

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