Pesadelo em POLIS Street

Escrito por Pedro Narciso

Caso a locomotiva já estivesse instalada nos carris da rotunda, ao invés de estar atascada em mais um imbróglio burocrático de contornos delirantes, já teria utilidade. Apitar sempre que algum eleito municipal tivesse a ideia de concretizar mais uma cicatriz na imagem da cidade. Na Estação ninguém dormiria. Sem locomotiva, teremos a hipótese de colocar um cartaz adjetivando a capacidade de seleção deste executivo. VERGONHOSA! Já que a quantidade de decisões deste nível excedeu claramente a dose máxima recomendada ao crescimento normal do concelho por mandato. Se o objetivo é ficar na historia como o Freddy Krueger da reabilitação urbana, amputando o mais completo parque do concelho, o executivo já está no radar do prémio Pritzker da estupidez.

O Parque Urbano do Rio Diz, popularmente conhecido por POLIS, é, de forma consensual o projeto de reabilitação urbana com maior sucesso das últimas décadas na nossa cidade. De um projeto megalómano, com restaurantes panorâmicos, museus da água, monorail Guarda/Guarda-Gare, ficou apenas esta fração de 21 hectares. Um ex-libris da prática desportiva informal, um santuário para a diversão dos mais pequenos em forma de parque infantil gigante, um local de observação da natureza, um verdadeiro espaço que aumentou a tão propalada autoestima municipal. Um espaço mais polivalente, transversal e aceite que a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa. O local onde se consegue ver o que significa, efetivamente, aumento de qualidade de vida da população. Além da magnífica Sé Catedral, a que outro local se leva alguém que não conhece a Guarda?

Num processo em que foi necessário recorrer a um gabinete de arquitetura do Porto, 50.000 euros acrescidos de IVA, para que indicasse o melhor local para a construção do Centro de Exposições Transfronteiriço, a escolha foi óbvia. A antiga fábrica Tavares, propriedade da Câmara Municipal, a necessitar de reabilitação e numa localização excelente. Absurdo foi ter escolhido sem saber que a fábrica ocupada – e, segundo as noticias, paga – não se encontra escriturada. O nível de amadorismo anterior ao atual atinge níveis estratosféricos e exige respostas rápidas a questões simples. Apressadamente, para contornar este percalço, o executivo municipal pretende implodir parte substancial do POLIS para consumar esta obra. Depois do “lifting” do 10 de Junho, do “botox” dos acessos de alcatrão, vem a colocação do silicone que desfigurará, ainda mais, a imagem do parque.

Poupar parece ser a palavra de ordem, perdendo-se a oportunidade de reabilitar ou ocupar espaços vazios da malha urbana da cidade e aniquilando um parque que cumpre as suas funções. Uma “loose”/ “loose situation” como poucas. As antigas piscinas municipais/ Bairro da Fraternidade necessitam há décadas de uma solução. A zona do mercado quinzenal, próxima do centro, poderia resolver, também, outras equações complicadas. O mercado municipal/ central de camionagem tiveram uma intervenção de fachada. O pavilhão de S. Miguel não terá capacidade para crescer? A envolvente da fantasmagórica rotunda da Mão, na principal entrada da cidade, sem grande movimentação de terras, perto do POLIS. A antiga Delphi, se for negociável. A própria Quinta da Maúnça, deslocada, mas com potencial para outros voos. Temos mais opções que Fernando Santos para posições no meio campo, mas convocamos o Ronaldo para a baliza… Tudo será melhor que a subtração do POLIS.
Quem acredita cegamente na regionalização, e delegação de competências para os municípios, deveria ter este exemplo em mente para perceber o quão levianamente se escolhe, mesmo com maior proximidade. Basta pensar na ligeireza de quem se dizia apto para receber uma “gigafactory” da Tesla e agora tem que destruir um parque para construir um pavilhão.

Depois de investir na reabilitação das margens do único curso de água com alguma dimensão na cidade, de continuar a gastar em projetos de reabilitação do lago, de revisão do Plano de Pormenor, a opção é um verdadeiro vai tudo abaixo. Uma roleta russa de escolhas que redunda, vezes demais, na incapacidade da sua concretização e que neste caso pode muito bem significar um tiro, não no pé, mas no pescoço, do executivo e do concelho.

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Pedro Narciso

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