O INTERIOR nasceu nos primeiros dias de um novo século, momento para o qual se antecipavam profecias apocalípticas e bugs informáticos catastróficos. Nenhuma das previsões se cumpriu, pelo que o pior acontecimento desse janeiro de 2000 terá sido o nascimento deste jornal.
Agora estarão a pensar: “pior acontecimento”? O tipo enganou-se: provavelmente queria escrever “melhor acontecimento”! Mas não, não me enganei. O nascimento deste jornal foi mesmo o pior que podia ter acontecido a quem se meteu na aventura de o transformar numa forma de vida, mas também o pior para os atores sociais da região habituados a uma imprensa dócil.
Quem decidiu investir/trabalhar n’O INTERIOR nunca pensou que a revolução tecnológica em curso teria consequências tão fortes na sua atividade. Primeiro, a Web trouxe novos concorrentes exteriores ao ecossistema, como os blogues e as redes sociais. Depois, os smartphones criaram formas de consumo caracterizadas pela instantaneidade e pelo domínio dos conteúdos vídeo face aos escritos. Por fim, a Inteligência Artificial trouxe novos riscos ainda por confirmar, sobretudo na sua vertente generativa.
Se a influência da tecnologia foi transversal a todo o setor, a questão financeira afetou sobretudo os jornais e, em particular, os locais. A fragilidade do tecido empresarial regional obrigou estas publicações a dependerem quase exclusivamente das vendas/assinaturas e da boa vontade dos autarcas para comprarem espaços publicitários. Porém, as vendas continuam em queda e a compra de publicidade costuma ser proporcional à simpatia dos autarcas pelo jornal…
E aqui entramos nos segundos destinatários da pior notícia do ano 2000: os atores sociais. Ao longo de 25 anos, O INTERIOR tornou-se num verdadeiro farol da verdade. Abriu as páginas a vozes de todos os quadrantes políticos, deu visibilidade a casos de corrupção e criticou más opções estratégicas, recorrendo sempre a informação factual e contrastada. O resultado foram uns quantos processos judiciais e muitas páginas de publicidade suprimidas, situação que fragilizou as finanças do jornal, repercutindo-se nos seus investidores e trabalhadores.
Um quarto de século depois, a pergunta que se pode fazer é simples: valeu a pena? Não sei o que pensam os investidores, os jornalistas nem os autarcas, mas para a sociedade civil a resposta é clara: sim, valeu a pena porque houve um benefício para a sociedade. E ainda vamos a tempo de corrigir a parte relativa aos investidores e jornalistas: basta sermos coerentes com a nossa opinião, comprando/assinando o jornal ou pressionando os poderes públicos para manterem o seu apoio ao jornalismo independente e vigilante. Em rigor, esta é a única forma de garantir democracias funcionais das quais todos beneficiamos.
Parabéns a O INTERIOR e venham mais 25!
* Professor da Universidade da Beira Interior
*Membro de Conselho Editorial de O Interior desde a fundação