Corria o ano de 1936, mas ainda a dar os primeiros passos. A vida das gentes da Raia sabugalense era difícil e pobre, mas, pior ainda, sem grandes esperanças de um futuro melhor. Contudo, se para os homens a vida era áspera e amarga, para as mulheres ainda o era mais. O caso sensibilizante que vamos contar mostra isso mesmo: a coragem, o sacrifício e a dedicação de uma mãe e esposa, e daí que lhe tenhamos dado, simbolicamente, o título de “Mãe Coragem”.
O contrabando
Na Raia vivia-se da agricultura e da pastorícia, e de algum comércio. O contrabando era um complemento importante dessas atividades, mas era um contrabando pobre. Praticado sem recurso a outros meios que não o próprio corpo, era feito em pequena escala, quase individual. Transportava-se o que cada um podia aguentar e que também fosse facilmente vendável na própria aldeia ou nas vizinhas. Era tudo coisas simples, umas alpercatas, uns lenços, umas “panas”, azeite, roupas e calçado e pouco mais, e que mal lhe davam para comer. Não passava de um contrabando de subsistência, em que alguns produtos se destinavam a consumo próprio e os restantes à venda.
No entanto, era ilegal e daí que fosse arriscado e trabalhoso. O contrabandista entrava em Espanha com relativa facilidade, mas o mesmo já não acontecia à saída. Andava sempre por caminhos ínvios, serras ou matagais, procurando evitar dessa forma o guarda-fiscal ou o carabineiro.
As visitas a Espanha eram frequentes, quase repetitivas, e apesar disso, o contrabandista pouco mais conhecia que uma ou duas povoações vizinhas: Navas Frias, Valverde del Fresno, Albergaria de Argañan, Casillas de Flores ou El Payo. De outras, tinha ouvido falar, é verdade, mas embora ali próximas, imaginava-as longínquas no seu imaginário de Espanha. O grande contrabando, sobretudo “minério”, era feito com recurso a grandes meios e implicava a contratação, por vezes, de centenas de homens. Mas este tipo de contrabando ainda estava para chegar, viria com o fim da Guerra Civil espanhola e o começo da Segunda Guerra Mundial, culminando com a Guerra da Coreia.
Os Foios em 1936
Era também, assim, a vida nos Foios. Na altura, com cerca de 950 habitantes, tinha quatro pessoas a viver em cada casa, hoje tem 360 habitantes e já só uma pessoa por fogo. Apesar de tudo, há bem pior. Em Aldeia do Bispo nem uma pessoa vive em média por casa (0,8), em Quadrazais (0,6) e em Alfaiates ainda menos (0,5). Situada num contraforte da Serra das Mesas, sem estradas, apenas caminhos e veredas, era uma terra quase isolada. Para se ir a Aldeia do Bispo tinha que se vencer uma serra com mil metros de altura e para ir por Vale de Espinho tinha que se atravessar uma ponte, que mais não era que um pontão, muitas vezes derrubada pelas intempéries, e outras, pela má vontade e má vizinhança de alguns. Vivia-se essencialmente do amanho das terras e da pastorícia. O comércio era pouco, António José Casanova vendia fazendas e António Mendes um pouco de tudo. Lavradores mais abastados eram Joaquim Antunes Pires Leal, Bernardino Afonso, Manuel Gonçalves Fernandes, Manuel Pereira Figueiredo e Francisco de Andrade.
Uma pobre mãe
Estávamos nos Foios, decorria o ano de 1936. Leopoldina Tavares, por lá tinha nascido a 19 de março de 1893, e de lá só tinha saído para ir a Espanha, pois que ela, como tantas outras, complementava o parco rendimento da casa com alguma coisa resultante do seu “negócio” de contrabando. No primeiro dia de fevereiro, um sábado, lá foi, mais uma vez, fazer um “carrego” a Valverde del Fresno. Para isso, tinha que ir, sempre a subir, até à Nave Molhada, bem perto do alto da Serra das Mesas, com cerca de 1.200 metros, depois era uma descida íngreme até Valverde, aos 500 metros. Para lá transportava uns garrafões de vinho, para cá trazia uns litros de azeite. O dia estava medonho, de grande tempestade, e por isso ainda hesitou em ir. Mas, como julgava ela, naquele dia pavoroso os carabineiros e os guardas-fiscais não se atreveriam a sair do quartel e talvez fosse de arriscar. No entanto, foi a pobreza e a necessidade de matar a fome na família, que a fez avançar. Calcorreou os longos caminhos, ínvios, desabridos e íngremes até Valverde, onde vendeu o vinho e comprou o azeite, que com grande mágoa dela, também seria para vender. Mas, pensava ela, se tudo corresse de feição, talvez guardasse um bocadinho para o Natal. Bem lhe custava, mas que fazer? Um litro de azeite correspondia a um dia de salário de um homem e o seu marido, Mateus Leal, naquela altura do ano, nem trabalho arranjava! O regresso à aldeia foi um martírio, à agrura do tempo juntava-se o cansaço e, sobretudo, a rudeza daquela subida impressionante de Valverde até aos Foios. Tudo isso ela suportou com estoicismo. No entanto, havia uma outra, e mais grave provação: estava prestes a ser mãe! Consciente disso, apressou o passo. Mas quando ia a atravessar um descampado, e já estava bem perto da aldeia, foi acometida pelas dores de parto, e aí, sim, resignou-se. E foi ali, num lugar ermo, só, sem poder pedir auxílio a ninguém, que deu à luz três crianças, então um caso raríssimo. Enregelada, a neve tinha começado a cair, tirou o seu velho xaile, e embrulhou nele os filhos. Mas sabia que não podia ficar ali, por isso foi-se arrastando, caminhando, angustiada, com os filhos nos braços, em direção a casa. De vez em quando ia gritando, implorando auxílio. E foram esses lamentos que lhe valeram, pois foram ouvidos por Rafael Duarte, que passava por aqueles lados. Muito doente, prostrada, quase sem poder andar, foi levada a sua casa. A notícia correu rápido, primeiro veio o pároco, depois o regedor, e a seguir quase todo o povo da aldeia.
Pelos filhos já nada podiam fazer, bem o viram, pois estavam mortos, mas por ela, para lhe acudir, chamaram o Dr. Francisco Reis Lopes, de Alfaiates. Mas de nada valeu, dois dias depois também ela morreu. Foi, afinal, sempre uma mulher infeliz, na morte e no nascimento. Quando nasceu, por se encontrar em perigo de vida, não foi batizada na igreja, mas na própria casa dos pais. Por sua vez, a mãe tinha sido “exposta”, ou seja, abandonada à porta da igreja, e daí, porque sobreviveu, lhe tenham posto o nome de Esperança. Casou com Jerónimo Tavares, e tiveram a nossa Leopoldina, de triste sina, como vimos.
É uma história triste, que comove! Mas é também uma lição, que nos mostra as dores e sofrimentos daquelas gentes, mas também a força e a vontade de as ultrapassar. Com aquela determinação e aquela coragem, que mães, que gente, eram, afinal?

Foios, na atualidade.

Entre a Espanha e Portugal. Foto Ana Manso

Nave Molhada. foto Ana Manso
Valverde del Fresno, lá ao fundo, vista da serra. Foto: Corredera
* Investigador da história local e regional