Francisco de Pina e a crise de futuro da Guarda

Escrito por Acácio Pereira

Francisco de Pina (1585-1625) foi muito provavelmente o egitaniense que levou mais longe o nome da Guarda, literalmente. Levou-o até ao outro lado do mundo, ao Vietname, onde a sua obra ainda hoje se lê em cada letra, em cada sílaba do quốc ngữ, o sistema de escrita vietnamita que ele ajudou a criar baseado na língua portuguesa.
Francisco de Pina foi um homem de génio, um precursor, dominou a fonética tonal de uma língua estrangeira e representou musicalmente os seus sons numa época em que a Europa mal sabia o que se passava para lá do Cabo da Boa Esperança. No Oriente, a língua portuguesa foi ferramenta de missão e ciência e, com ela, Francisco de Pina civilizou fonemas, construiu pontes culturais, deixou uma marca eterna.
O que fez a sua cidade natal para o homenagear? Quase nada: colocou-lhe uma estátua oferecida… nas traseiras da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço. Atrás, como quem esconde. Como quem diz “pronto, está feito, passemos à próxima selfie institucional”.
A escultura – um belo barco criado pelo artista vietnamita Nguyen Huy Anh – foi oferecida por uma delegação de 25 representantes da Fundação da Escrita Vietnamita que veio até à Guarda prestar homenagem ao homem que moldou a base da sua língua moderna. Eles trouxeram reconhecimento, memória e gratidão. A Guarda ofereceu um recanto sem dignidade.
Não é a primeira vez que este tratamento é dado a vultos relevantes da cidade. A estátua de D. Sancho, seu fundador, também jaz num canto com ar de quem se perdeu a caminho do trono. A Guarda, ao que parece, tem um problema com a grandeza, talvez porque a grandeza não rende votos, não mobiliza comissões de festas, nem gera jantares para distribuir favores. Francisco de Pina, coitado, já não tem família cá. Não se presta a patuscadas, logo, não serve.
Francisco de Pina não precisa da Guarda para ser lembrado. Vai continuar a sê-lo pelos vietnamitas, pelos linguistas, pelos historiadores. A Guarda é que precisava de Francisco de Pina para ter orgulho, para ter memória, para ter exemplos para o futuro. E desperdiçou a oportunidade.
Nada é mais efémero do que o Poder Local quando falta cultura e visão. Os homens pequenos têm medo dos grandes.
Francisco de Pina será lembrado daqui a 500 anos. Enquanto o Vietname escreve em quốc ngữ, nós continuamos a escrever em silêncio. Porque nesta cidade, onde tantos nasceram para o mundo, continua a faltar quem saiba ler a sua história. Pior: falta quem a saiba continuar com talento e mundividência do futuro.

* Presidente do Conselho Distrital da SEDES Guarda

Sobre o autor

Acácio Pereira

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