Gosto da ideia de que não há factos eternos, como também não há certezas absolutas, levando-me, por isso, a uma reflexão sobre a verdade da liberdade enquanto expressão linguística. É verdade que a verdade termina onde começa a do outro, a verdade de uma liberdade em que se percebe que a esfera do outro tem a mesma essência, a mesma dignidade que eu e o mesmo direito de ser livre.
O valor “dēmos kratos” resultante do 25 de Abril de 74 assenta na premissa que “a chuva é do povo, abaixo os telhados” e que a liberdade democrática será sempre um valor tangível, que terá de se proteger.
Constatamos, hoje, evidentes tiques de modernidade na aplicabilidade de uma inteligência artificial (“fake news” em crescendo) e notamos também formas egocêntricas exacerbadas de quem informa, resultando daí uma libertinagem negativa de desinformação. É sobre esta “mise en scène” dicotómica e antagónica que enquadro e avalio a evolução da realidade jornalística nacional, regional e local.
Neste contexto, a incidência é a imprensa regional. O foco é o jornal O INTERIOR. 25 anos de história(s) a descrever cápsulas do tempo, um tempo determinante para este território, um tempo que se perdeu, mas que ficou sinalizado, independentemente da forma, nos anais da memória daqueles que permaneceram e permanecem por cá.
A conduta deste aniversariante tem-se pautado pela coerência, inspirando confiança, sabendo manter ponto a ponto e em cada ponto um desaponto, a equidistância necessária de qualquer idiota que pretenda dizer o que quiser, sobre o que quiser e quando quiser.
Este é o momento e o tempo adequado para reconhecer a importância jornalística que brota do processamento evolutivo e da mudança do paradigma “Sometimes people look but can´t see”.
A régua e o esquadro da imprensa regional medem, agora, em partes iguais, a distância entre Vila Nova de Foz Côa e a Guarda (capital de distrito). Seria um absurdo e um erro de palmatória esquecer a importância e a mais valia histórica, patrimonial, turística e cultural, de entrar na Serra pelo Douro.
Vila Nova de Foz Côa, tal pedaço de terra paleolítica, é a “Origem”, é o território de confluências de emoções, de paladares diversos e onde Pandora, a grande pedagoga do Vale do Côa, criou a liberdade e a energia linguística.
Saúde por isso, o jornal O INTERIOR pelos seus 25 anos de Pandora, pela sua sobrevivência à não subserviência jornalista. Saúdo os jornalistas, guardiões da democracia, e daquilo que muitas vezes é escondido nas sombras, trazendo à luz a coerência, a dinâmica e a diversidade. Reconheçamos aqueles que têm a coragem de servir sem se servir, sem recorrer aos polígrafos artesanais, lutando contra os índices e agentes emergentes de mediocridade prejudiciais à região.
Estejamos, por isso, atentos e despertos, nesta era atípica de democracia trumpiana, aos novos difusores de informação, as redes sociais e os motores de busca, pois estes funcionam como um filtro ou como molas impulsionadoras para o noticiário criado pelos jornalistas.
Abomino sinceramente jornalistas esponjosos ou pegajosos que fazem notícias do “corta e cola”. O farol da liberdade e da verdade sem amarras deve ser o mesmo farol que ilumina a liberdade de expressão, a liberdade do rigor jornalístico e da isenção informativa. Há, de facto, muita estrada para andar e o jornalismo puro, enquanto rascunho bruto da história, deve continuar.
* Presidente da Câmara de Vila Nova de Foz Côa