Economia

Aumento da atividade turística na região «é pura ficção»

Escrito por Jornal O Interior

A economia do interior não sairá naturalmente beneficiada durante o período pós-Covid, a não ser que as empresas aqui sediadas sejam suficientemente competitivas. Esta é uma das principais conclusões de Luís Veiga, administrador executivo do grupo IMB Hotels, que se mostra contido ao avaliar o período de retoma económica na região.

Em entrevista a O INTERIOR, o empresário afirma que a procura por áreas rurais para períodos de lazer não aumentou após a pandemia e que essa crença «é pura ficção». «Quando se diz que o turismo rural está completamente cheio… não está mais nem menos do que estava nos anos anteriores. No Verão sempre houve uma grande apetência do mercado pelo turismo rural», afirma, razão pela qual o aumento da procura não é fruto da preocupação sanitária. «De norte a sul do país há casos de sucesso, de recuperação rápida. Isto não tem nada a ver com o facto de estar no interior ou não estar no interior, mas sim com a competitividade das empresas», considera Luís Veiga.
O grupo IMB emprega 220 trabalhadores, número que não sofreu alterações durante o confinamento. «Cerca de 150 pessoas» estiveram em “lay-off”, situação que já não se verifica neste momento, de acordo com o responsável, que diz estar «praticamente tudo a funcionar» de forma normal. O hotel Vanguarda, na Guarda, e o Sport Hotel, na Covilhã, foram as exceções que nunca estiveram em “lay-off” e chegaram a servir de «retaguarda aos hospitais centrais respetivos».

A unidade onde a recuperação está ser mais rápida é o H2otel, em Unhais da Serra, que reabriu a 20 de junho e tem agora uma taxa de ocupação de cerca de 40 por cento. Nos restantes hotéis do grupo a taxa «é de menos de 20 por cento», algo que, em parte, se deve às medidas de segurança adotadas pelo grupo: «Após uma saída, temos 48 horas de quarentena em todos os quartos. Isso leva a que a taxa de ocupação seja claramente limitada de alguma forma», explica Luís Veiga.

Concessão da Serra da Estrela é «o maior entrave ao desenvolvimento»

A retoma da atividade turística na Beira Interior inclui, necessariamente, a Serra da Estrela. Esta é uma área que, para o empresário, tem as suas potencialidades subaproveitadas, especialmente devido ao regime concessionário praticado e que diz ser «o maior entrave ao desenvolvimento» da área. Luís Veiga critica que exista uma concessionária – atualmente a Turistrela – com o «exclusivo do desporto e do turismo» e que, segundo o empresário, «não faz absolutamente nada que contribua para o dinamismo» da Serra da Estrela. «Nós estamos a pagar por isso», na medida em que este destino fica identificado «como “low-cost”» e perde competitividade. O administrador refere ainda outra preocupação: «Como é que o Geopark Estrela vai conviver com uma situação – que não é normal na Europa dos nossos dias – de haver uma concessão com a qual não há sequer diálogo?».

”Interioridade” só se combate com «cooperação»

A questão da Serra da Estrela não é, no entanto, o único entrave ao desenvolvimento da região. Segundo Luís Veiga, não há «lobby na região», razão pela qual o poder central anuncia medidas para o interior que «não têm resultado absolutamente nenhum», como é o caso da redução das portagens.

O responsável afirma que a visão dos empresários locais «é que deve ser criada uma estrutura, uma agência de desenvolvimento regional para a Beira Interior, que agregue as duas CIM [Comunidades Intermunicipais]». Isto só pode ser feito se for resolvida a «questão cultural» e a «questão política» que diz existir na região. A primeira relaciona-se com a «mentalidade de aceitarmos tudo» e «não exigirmos do Governo tudo a que temos direito». A segunda prende-se com os autarcas: «Cada um olha para a sua capelinha e não conseguem – também no âmbito das Comunidades Intermunicipais – trabalhar em conjunto», critica Luís Veiga. «Esta falta de rede, de ligação, de cooperação entre todos, leva a que nos mantenhamos sem voz neste momento», lamenta. E deixa o apelo: «Isto tem de partir de baixo para cima, ou seja, da região para o Governo. É necessário fazer a estrutura e chegar lá com um caderno de encargos que diga que temos a estratégia para 2020/2030», que irá permitir planear e executar os anunciados os fundos europeus atribuídos a Portugal.

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