Cara a Cara

«A agricultura no distrito da Guarda está cada vez mais difícil»

Sandrina 3
Escrito por Sofia Pereira

P – Esta quarta-feira comemora-se o Dia Mundial da Agricultura. Como considera que está o setor na nossa região?
R – A agricultura no distrito da Guarda, principalmente para os médios e pequenos agricultores, está cada vez mais difícil. E os grandes agricultores também estão a sentir dificuldades porque as burocracias são cada vez mais, a população tem menos recursos, e têm cada vez mais dificuldades em aceder aos apoios, tanto nos subsídios agrícolas como para projetos. É uma carga burocrática tão grande que está a asfixiar a agricultura. Temos outro problema que é a comercialização dos produtos a um preço justo. Os fatores de produção, como os fertilizantes, os produtos fitofármacos e o combustível, estão cada vez mais caros. E quando os agricultores vão vender o seu produto o preço mantém-se ou até é inferior ao dos anos anteriores. Isto asfixia completamente os agricultores. Há também o problema de algumas pragas, como o javali, que destrói as culturas… A maior parte dos produtores já não cultivam milho e cereais, por exemplo, porque o javali destrói tudo. O cenário deveria ser animador porque, devido a zonas de microclima, temos áreas muito propícias para a produção de produtos de excelência na fruta, na hortícola em pequena quantidade. Só que isto tudo vai asfixiando os agricultores.

P – Como é que os produtores sobrevivem na região? Os apoios chegam até eles ou é difícil ter um negócio relacionado com a agricultura?
R – Ter um negócio relacionado com a agricultura em pequena escala no nosso território é difícil. Ainda não há, como noutros territórios, a questão da venda de cabazes, que seria uma boa alternativa. Mas aqui, como somos um território rural, e a maior parte da população tem os avós ou os pais, ou os próprios, que ainda fazem algumas culturas, hortícolas e minifúndio para autoconsumo, não é uma alternativa tão viável noutras zonas do país, onde não há acesso à produção das hortícolas e da fruta para autoconsumo. E também é difícil a agricultura em maior escala, que vai sofrendo as suas dificuldades, até porque os produtos vêm do exterior a um custo menor.

P – Há produtores a comentar que o preço de venda ao público dos produtos não é lucrativo. Como é que podem aumentar o negócio e aproveitar novas oportunidades?
R – O ideal era apostar na ligação entre o produtor e o consumidor final, diminuindo os intermediários. Aí conseguir-se-ia vender o produto a um preço mais justo. E seria muito importante agregar os produtos agrícolas da região para que pudessem ser comercializados para cantinas e lares para que fosse benéfico para o agricultor produzir. Ou seja, se o produtor souber que produz uma tonelada de batata e esse alimento tem escoamento, ele vai produzir. Se não tiver garantia de escoamento a um preço justo não o produz. Mas as duas grandes opções serão esta da comercialização produtor-consumidor final e o fornecimento dos locais que mais consomem produtos agrícolas.

P – Será por causa desses problemas que os jovens não se interessam muito pela agricultura? 
R – É exatamente essa a questão porque o grande problema é não conseguirem vender o produto a um preço justo e não terem rentabilidade. Depois, a nível burocrático também é muito, muito exigente, e as pessoas acabam por desistir e apostam noutras alternativas que, se calhar, não lhes dificultam tanto a vida profissional. A fiscalização é essencial, mas a carga burocrática em demasia é muito complicada e faz com que haja muitas desistências. Há muitos projetos de pequenos investimentos que são aprovados, mas depois os beneficiários desistem porque as burocracias e as exigências são tantas…

P – Como vê a agricultura daqui a alguns anos?
R – A agricultura no território da Guarda é essencial à preservação da pouca diversidade que há a nível do território. E quando deixar de haver estes apoios à pequena agricultura e aos pequenos agricultores, estou convicta que as áreas abandonadas vão ser maiores. Temos áreas que ainda têm que ser trabalhadas manualmente, porque a sua tipologia não permite grande mecanização, e se não houver apoio a estes agricultores, o território que hoje ainda produz azeite, fruta, legumes… vai ficar abandonado, cheio de mato. Todos os agricultores são essenciais e são muito importantes porque muitos pequenos produtores fazem os grandes e eu defendo que tudo é necessário e que todos eles devem ser apoiados.

P- Neste Dia Mundial da Agricultura, que mensagem deixa para os agricultores que pretendem continuar no setor?
R – Que continuem a ter muita força de vontade, pois é o que ainda os continua a mover, não propriamente a parte económica. É não desistirem porque melhores dias virão. Gostava que fosse assim, mas não é isso que vou presenciando. Cada ano que passa é mais difícil apoiar com os subsídios agrícolas. Até nós, técnicos, temos vontade de desistir na maior parte das vezes, portanto, mas alguém tem que defender o mundo agrícola. Sem agricultura nada existe porque é a base para a sobrevivência do ser humano. Sem alimentação, nada existe. Podemos viver numa casa melhor ou pior, com um carro melhor ou pior, mas alimentar é a base da vida.

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SANDRINA MONTEIRO 

Presidente da Associação dos Agricultores do Distrito da Guarda

Idade: 44 anos

Profissão: Engenheira Zootécnica

Naturalidade: Guarda

Currículo (resumido): Licenciada em Ciências Agrárias, Agricultura Biológica e Higiene e Segurança no trabalho

Livro preferido: Obras técnicas sobre agricultura – Agricultura Biológica, Fertilização e bem-estar animal

Hobbies: Agricultura

Sobre o autor

Sofia Pereira

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