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Vaca jarmelista, do perigo de extinção à valorização como iguaria

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Escrito por Efigénia Marques

Em 2007 esteve em risco de extinção, mas a Acriguarda, em parceria com os produtores e as entidades competentes, tem aumentado o efetivo da vaca jarmelista, a última raça autóctone portuguesa bovina a ser reconhecida

A raça bovina do Jarmelo, no concelho da Guarda, é uma espécie que, em 2007, esteve em risco de extinção, pois «só conseguíamos referenciar 23 animais supostamente com traços da raça jarmelista», recorda José Manuel Nunes, médico veterinário na Acriguarda – Associação de Criadores de Ruminantes do Concelho da Guarda.
O também agricultor e entusiasta da vaca do Jarmelo considera que, ao longo do tempo, as jarmelistas mudaram a sua aptidão na função porque «antigamente eram usadas para o trabalho da terra e para a produção mista de leite e carne» e a identidade da raça foi-se perdendo. Porém, «desde 2007 o nosso trabalho tem sido restaurar um número de animais suficiente para que a raça não se extinga. Está ameaçada de risco extremo de extinção e temos feito um trabalho para aumentar o número de fêmeas, motivar criadores novos para que se dediquem a esta atividade em vez de terem animais exóticos», exemplifica o responsável. «O apoio comunitário é a maior ajuda atribuída às raças autóctones em Portugal devido ao facto de existirem poucos animais e ser uma raça de extremo risco de extinção. Também a Câmara da Guarda, da qual temos tido uma grande ajuda, instituiu há vários anos uma verba para os filhos destes animais nascidos e registados no livro genealógico jarmelista», acrescenta.
Com estes incentivos e de o número de animais aumentar de ano para ano, a Acriguarda aposta agora na comercialização e na confeção da carne bovina jarmelista. «É um produto nosso, da Guarda, da nossa terra, do Jarmelo, que creio que é único no mundo. Então temos de valorizar e dar a conhecer esta iguaria», sublinha José Manuel Nunes. E essa divulgação é feita essencialmente em eventos gastronómicos da região com o objetivo de «incentivar e motivar a restauração da nossa região a usar este produto e dar a conhecer a quem nos visita mais um produto de topo, saboroso, diferente dos outros, que leva muitos anos, mercê de uma alimentação de altitude, porque estamos a falar de pastagens entre 700 e 900 metros de altitude que transmitem características organoléticas diferentes de outras zonas do país», justifica o produtor e veterinário.
A prova de que esta é uma iguaria gastronómica que tem vindo a ganhar terreno e visibilidade nos últimos tempos está nas medalhas conquistadas. A Acriguarda participou no 13º Concurso Nacional de Carnes Tradicionais Portuguesas em três categorias, nas quais ganhou três medalhas: «Vencemos no hambúrguer biológico, na posta jarmelista e num outro concurso paralelo de Inovação, onde tentamos levar um corte menos habitual em Portugal e desconhecido nesta região». Quanto às características da carne, José Manuel Nunes descreve a jarmelista como sendo «mais suculenta e mais apropriada para ser comida como uma iguaria». Atualmente, há cerca de 30 produtores e 500 animais, mas para assegurar que não fica novamente em vias de extinção «já fizemos a salvaguarda da genética para o futuro e também temos uma amostra representativa de animais que as pessoas possam visitar e conhecer», refere.
Na sua opinião, este crescimento nos últimos anos significa que, na Guarda, «se podem fazer coisas que vão além do nosso concelho e distrito, pois estamos inseridos numa zona com potencial e que pode crescer».

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Efigénia Marques

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