Verão quente

“Não importa a temperatura ou as condições atmosféricas, sair e caminhar são instituições que deveriam ser consideradas património cultural imaterial da UNESCO.”

Este Verão lituano, durante o mês de Julho, foi particularmente quente. Duas semanas com mais de 30 graus e céu limpo deixaram os nativos numa mistura de espanto e êxtase. Agosto voltou à normalidade, e os dias agora intercalam horas de sol e de chuva, com temperaturas que não ultrapassam os 25 graus. Mesmo assim, dizem os locais, está “bom tempo”. E como está bom tempo, convida a sair, andar na rua e a sentar em esplanadas.
Sair e andar na rua, note-se, é um costume local bastante apreciado todos os dias do ano. Não importa a temperatura ou as condições atmosféricas, sair e caminhar são instituições que deveriam ser consideradas património cultural imaterial da UNESCO.
Talvez pela importância que tem andar na rua, durante todo o tempo que durou a quarentena nacional foi possível ser atendido ao balcão, primeiro, e nas esplanadas, depois. A partir de Maio, o tempo e a lei passaram a permitir que todas as pessoas se pudessem sentar nos espaços ao ar livre.
Mas a partir desta semana, a lei permite (apadrinha, até) que os serviços impeçam a permanência – inclusivamente em locais abertos – de pessoas que não estejam vacinadas. Tinha por boa a teoria política da segunda metade do século XX que defendia o princípio da não-discriminação. (Não o digo por ser negacionista ou anti-vacinação – fui vacinado na Lituânia ainda antes do meu grupo etário o poder fazer em Portugal.) Digo-o porque, apesar da pandemia, continuo a acreditar na bondade de livre arbítrio e a saber até onde nos pode levar os horrores da segregação. (E também por acreditar nos especialistas de saúde que garantem que ao ar livre o risco de contaminação é mínimo, mas isso é outra conversa.)
A semana passada, uma manifestação de centenas de pessoas anti-vacinação rodeou e tentou invadir o Seimas (parlamento), em Vilnius. Espero que estas pessoas não sigam o exemplo das que destruíram (ou aplaudiram a destruição) de lojas e espaços públicos durante as manifestações do Black Lives Matter, quando forem impedidas de os frequentar. Mas não se antevêem dias pacíficos pela frente.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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