Lord of the Flies ou Mandariinid?

Escrito por Fidélia Pissarra

Do que me lembro, um dos rapazinhos da ilha, ao dar de caras com uma cabeça de porco coberta de moscas e espetada num pau, terá achado que, se aquilo era um tipo de oferenda ou homenagem a um pretenso deus, este só poderia ser o das moscas: “O Deus das Moscas” (Lord of the Flies). Obviamente que a história de um deus assim nunca poderia acabar bem e muito pior teria sido caso, em boa hora, não tivesse surgido quem resgatasse as crianças sobreviventes da guerra própria a que guerras alheias as tinham abandonado. Atrevo-me até a pensar que, não fora o facto de o enredo excluir gente adulta dos acontecimentos relatados e o estar muito bem escrita, a história nada teria de inédito ou extraordinário. Era só mais uma como milhares de outras em que o mal se sobrepõe ao bem apenas para que um punhado de gente estúpida se entretenha a afirmar-se perante os demais. Com as características dos visados em tais exercícios de poder, não valerá a pena perder tempo e carateres, porque já todos as conhecerão, julgo.

As tangerinas (Mandariinid), ou melhor, apanhá-las, era para o que agora viviam os dois vizinhos que, como que imunes à guerra que os cercava, se preocupavam mais com tal tarefa do que com as balas, de todo o tipo e feitio, que lhes rasavam a casa. Mal eles sabiam que a guerra que não alimentavam, não queriam e tentavam ignorar, maior empreitada lhes haveria de arranjar. Entre a renitência deste e a voluntariedade daquele, um mais que o outro, acabaram ambos por assumir a recuperação de dois soldados, inimigos entre si, que se lhes tombaram nos braços. Esta última tarefa, de tão urgente e difícil, acaba por lhes trocar as prioridades, pois o tempo que deveriam dedicar à apanha das tangerinas passou a ser gasto a evitar que os dois feridos morressem ou se matassem entre si. Com uma dedicação destas a história só podia acabar bem e melhor acabaria se, em má hora, não tivesse chegado quem assassinasse o dono das tangerinas e o jovem soldado que, antes de o ser, escolhera ser artista de teatro. À semelhança da anterior, esta história também nada teria de inédito ou excecional, não fosse o caso de estar muito bem contada, ou filmada, se preferirem.
Significará isto que, mesmo que não haja nada de novo para contar, porque tudo parece reduzir-se à tensão entre o bem e o mal, há sempre diferentes maneiras de contar melhor velhas histórias? Talvez. Tal como decidir se acabam a favor de um lado ou do outro, preferir um vencedor a outro, talvez já só seja da incumbência de cada um, ainda que cada narrador pretenda sempre levar-nos a preferir um dos lados em relação ao outro. Certo, certo penso ser a nossa responsabilidade na escolha do lado por que nos deixamos seduzir, por que nos disporíamos lutar. Essa será exclusivamente nossa. A menos que evitemos ler, ver filmes e teatro. Nesse caso, já não precisaremos de nos incomodar em responsabilizarmo-nos pelo desfecho dessas histórias, ou pela forma como no-las pretendem contar. Aliás, um “tanto se me dá” nem nunca pagou imposto, nem nada.

Sobre o autor

Fidélia Pissarra

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