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«Usando a terminologia marxista, é uma manifestação da exploração do oprimido pelo opressor, em que o corpo é a mercadoria. A sedução não é nada disto»

1. Querem criar em Portugal uma réplica do movimento #metoo. Como? Tudo começou com umas “denúncias” públicas de algumas celebridades televisivas, maxime Catarina Furtado. As declarantes dizem ter sido vítimas de assédio, mas sem nunca apontarem nomes. É legítimo? Naturalmente. Interessante é perguntar porque é que não o fizeram no início da carreira, quando os episódios relatados supostamente ocorreram. A moda pegou e agora aparecem inúmeras queixosas, nos meios académicos, jornalísticos, literários. Claro que uma operária da Trofa ou uma empreendedora agrícola no Alentejo tem mais que fazer do que andar neste rol. Até porque o putativo monstro era afinal um pobre diabo que se exibia à saída da escola. Vamos lá ver se me faço entender. Os comportamentos que configuram assédio são crime e como tal devem ser percepcionados. A sua avaliação deve ser feita por critérios estritamente objectivos, alheios a agendas ideológicas. Penas pesadas e condenações efectivas? Sim. Apoio psicológico às vítimas? Absolutamente. Reforço de medidas preventivas? Claro. Discussão pública do tema? Be my guest. Não se pode é envenenar um jogo imemorial e elemento essencial da nossa humanidade: a sedução. Nem os homens podem aparecer como uma espécie predadora, nem as mulheres como vítimas indefesas. Em que há logo uma presunção de “culpa” atirada ao “homem”. Ora, um exibicionista não está a seduzir, mas, no mínimo, a incomodar. Nem um superior hierárquico, ou um professor, ou um “chefe”. Interpretam uma relação de poder para fins sexuais. Usando a terminologia marxista, é uma manifestação da exploração do oprimido pelo opressor, em que o corpo é a mercadoria. A sedução não é nada disto. Há uma igualdade de armas que só por conveniência se subverte. Por outras palavras, foi o que Catherine Deneuve apontou ao #metoo e por isso foi tão vilipendiada pelas feministas.
2. A emergência sanitária vivida em algumas freguesias litorais do concelho de Odemira merece algumas notas. Desde finais dos anos 80 sou um frequentador assíduo dessa zona, cuja área costeira já percorri e explorei por diversas vezes. Já fiquei alojado em montes onde pude assistir ao fluxo de migrantes recrutados para as explorações hortícolas. Cuja área não cessou de aumentar. As estufas passaram a enxamear a zona, ocupando o que antes foram milheirais e pastagens. S. Teotónio era uma povoação pacata, onde se comia bem, as casas eram baratas, a Faceco atraía muita gente, incluindo estrangeiros que, a partir dos anos 90, se fixaram nos concelhos de Odemira e Alzejur. O Brejão era um lugarejo com bons restaurantes, lojas de artesanato, muito espaço e ponto de partida para a célebre praia da Amália. Num discreto bar de praia do Cavaleiro comiam-se uns percebes divinais. Quando não se apanhavam na praia dos Machados, durante a maré vaza. Com lapas e mexilhões enormes. Para se deglutirem mais tarde, no final do dia. Assisti às metamorfoses da pressão turística, que andou de mãos dadas com a proliferação das explorações hortícolas. O número de contágios entre os migrantes deveu-se às condições de habitabilidade? Sem dúvida. Mas convém perceber que se, em grande medida, elas existem é devido aos obstáculos legais e administrativos à construção de habitações, como os operadores pretendiam. Agora é fácil apontar o dedo. Mas foi a inércia das autoridades locais e da DGS que conduziu a esta situação calamitosa.
3. Os construtores e pedreiros medievais perceberam que as gárgulas angélicas e beatíficas, que pontuavam nas goteiras e cúpulas das catedrais, não despertavam a curiosidade dos crentes. Eram maçudas, abstractas, quase inumanas. Por isso, recorreram à representação do mal, ou da sátira, em modo grotesco. Com o propósito de lembrar ao rebanho que o Diabo não dorme. Porque sabiam que é o vício e o riso – não a virtude e a gravidade – que conferiam individualidade a essas figuras. Da mesma forma que é o mal, precisamente para chamar a atenção do bem e dele se distinguir, que torna as suas aparições tão únicas, singulares e próximas.
4. Cair é muito mais fácil do que imaginamos. E mais ainda do que não ousamos imaginar. Basta que uma conjunção de circunstâncias difíceis se transforme em becos sem saída, ou obstáculos impossíveis de ultrapassar. Basta que os laços se desatem e as marés irrompam. A queda é, então, menos uma fatalidade do que um presságio. Menos uma desistência do que o sinal de que a passagem de uma fronteira nos pode levar a outra. É na queda que o céu e o inferno se tocam. Mas talvez seja isso, e só isso, que impede que a indignidade prevaleça sobre o infortúnio. Talvez seja nesse instante, onde estamos só nós no meio desse espantoso encontro, que a existência deixa de ter segredos. Que passa a ser uma floresta, onde reina a incerteza. Algo demasiado denso para lograr na sua plenitude. Mas demasiado simples para se temer. A queda pode ser terrível. Pode engolir-nos de um trago. Ou fazer aparecer uma cintilação nova, exclusiva, vista por quem está suficientemente perto de algo para não desistir e demasiado longe para começar já a descrer.

Sobre o autor

António Godinho Gil

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