Ficção: e se fossem doze meses?

Escrito por Diogo Cabrita

Na minha vida só houve um abraço como aquele. Foi depois de confinar. Saí de barba grande, com os cabelos a prejudicar-me a estabilidade, a interferir com a vista. Eram doze meses de entregas no domicílio, de ausência de família. Fiquei confinado numa cidade que não era minha, a racionar os dinheiros que tinha, a encomendar por telefone. A situação foi tão grave que a polícia temia os que saíam e parece que mataram alguns. Os seres humanos mostram sua criatividade maligna nestes dias, mas também suas qualidades infinitas. Cantaram das janelas, trocaram amores nas varandas. Conversaram através dos pátios. Havia os que traziam comida. Houve os que aproveitaram isso para destruir e roubar. Morreram pessoas nos assaltos, dizem. Fiquei um ano naquele apartamento e construí um miniginásio, fiz uma sala de cinema e falei diariamente pelo telemóvel. Falava com imagens, mas faltava-me o abraço. Um dia coloquei tuas roupas no cabide e demorei-me num abraço de carne e madeiras vestidas. A minha pele precisava da tua. Os meses foram passando e as estradas sem ninguém. Havia arbustos no meio do asfalto. Um dia vi uma briga de veados no passeio. Havia fêmeas e eles esgrimiam por elas. Partiram vitrinas, riscaram carros. Os meses permitiram que os pássaros voltassem às varandas, os animais maiores passeavam nas ruas sem vergonha. Quando saí, o carro não andou e por isso usei o táxi, depois o avião e fui para tua casa. Quero confinar-me contigo. Quero um abraço enorme. Estavas zangada porque não disse nada, não te saudei. Agarrado a ti, não davas por isso, mas eu chorava feliz.

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Diogo Cabrita

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