Cem anos de guerra e magia

Escrito por Joaquim Igreja

No final de uma leitura que adiava quase há cem anos, “Cem Anos de Solidão” é uma obra que me submerge e me deixa “embasbacado”. Pela capacidade de imaginação, pelas inúmeras variações de rumo que a história toma, pelo fim que vamos adivinhando nas últimas cem páginas. No meio de tantos Josés Arcádios e Aurelianos que nos desorientam por vezes, é a história de uma família no seu esplendor, glória e ruína. Uma família que, virada para si própria e para cumprir o seu desígnio, acaba por dar pretexto a que a decadência se intrometa. E não são assim as famílias? As famílias têm fases como a lua e mau é se nós surgimos numa fase em que a família puxa mesmo para baixo. Quando olhamos para as várias gerações de uma família, acabamos por reparar se fulano ou sicrana estão na fase familiar descendente ou ascendente ou se a família não está mesmo para implodir por falta de descendentes ou por desorientação económica ou estrutural total. O tal ponto descendente da curva.
Para além da saga familiar, são os mundos da guerra e da magia que enchem as páginas deste romance. A família Buendía assegura-se nesta obra pela afirmação social liderando a guerra e tendo iniciativa política. E aparece-nos a guerra em todo o seu fulgor. Aureliano Buendía e a sua agenda radical faz dezenas de guerras no país, sempre com vitórias mal assumidas e com uma incapacidade total de gerir a paz. A certo ponto são mesmo os revolucionários a compreender o vazio da guerra, diante da necessidade de matar mesmo os seus mais próximos. Se em casa era a figura de Úrsula que ia segurando os cacos, no país do desenvolvimento Aureliano Buendía não conseguia atenuar o desejo de conflitualidade e a necessidade de disputa, sendo incapaz de se integrar numa sociedade democrática. Por isso, desistiu e descalçou as botas. E o poder, ávido de se fortalecer na mediania, passou a cometer em paz a violência controlada, com ataques cirúrgicos ou dando lugares na administração para sufocar as bolsas de rebeldia. Ou negando aquilo que se supunha ter acontecido (um massacre, por exemplo) e que dois dias depois a generalidade da população concordava não ter acontecido. Não é assim em qualquer guerra, com tampões para não ouvir as bombas e a seguir com poções para o esquecimento?
A magia faz o centro desta história e é o que mais surpreende o leitor, desde a fábrica do gelo às borboletas amarelas de Maurício Babilónia, às profecias de Melquíades e às suas invenções, ao cheiro de Remédios, a bela, que era «um hálito de perturbação, uma rajada de tormento» e que um dia subiu ao céu ou os 17 irmãos Aurelianos com a cruz da morte traçada na testa, alvo pelo qual todos seriam mortos. O que é isto, meu Deus? Saramago e o “Memorial do Convento” ficam muito atrás com a sua passarola e é público que o realismo fantástico de Saramago aqui veio buscar inspiração. Mas a ideia de que temos poderes acima do humano e que basta explorá-los é uma ideia, para além de envolvente, inspiradora. A ideia inversa ou simétrica é a de que não escapamos ao destino e que, após anos de barbaridades a que não conseguimos fugir, temos a barbaridade a tomar conta de nós. A história de uma família que se fecha quando o último elo se enganchou em si próprio, incapaz de se projetar, acaba na conclusão de que quando nos fechamos criamos monstros que nascem ali à nossa frente.
Para os aprendizes de escritor, o livro ensina tudo menos a capacidade de imaginar que, essa sim, faz a diferença em cada escritor que inova ou que se limita a projetar o seu ego ou a procurar o aplauso. Contar uma história em que tudo dá uma carambola a cada 20 páginas, em que o mistério surge, cresce e se apaga com a revelação, em que as partes nos aparecem subtilmente ligadas, em que é possível estabelecer o percurso duma personagem que, em repouso, não estava parada e vemos depois preparada para nova etapa do seu destino, juntar crendice com inteligência, subtileza com ação, espavento com espera e contemplação, isso é surpreendente. Depois do neorrealismo ou do realismo militante, é possível pelo realismo mágico denunciar as ditaduras dos caudilhos sul-americanos pondo um milagre a fazer um coronel escapar ao pelotão de fuzilamento ou uma sobre-exploração do continente americano pelos gringos ser derrotada por manifestações sindicais que. por sua vez, serão esmagadas violentamente sem que a população disso se recorde dois dias depois. E será num sonho que esta verdade se revelará.
(Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, 1967)

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Joaquim Igreja

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