Cara a Cara

«Não há maior responsabilidade que aquela que a classificação da UNESCO nos dá a todos»

Escrito por Luís Martins

P – O que representa o Prémio Geoconservação 2020 para o projeto do Estrela Geopark?

R – Uma das áreas fundamentais de um Geopark Mundial da UNESCO é, precisamente, a Geoconservação, ou seja, a conservação e valorização do Património Geológico existente no território. No caso da Estrela foram identificados e inventariados 124 locais de interesse geológico (geossítios) que constituem a base da candidatura à UNESCO e de toda a estratégia deste Geopark. Como tal, a atribuição do Prémio Geoconservação 2020, atribuído pelo grupo português da ProGEO, é o reconhecimento de todo o trabalho desenvolvido pelos municípios que integram a candidatura e da Associação Geopark Estrela, em prol da valorização científica, educativa e turística do seu património geológico. Esta distinção vem também premiar a estratégia de desenvolvimento regional implementada por esta associação e a sua equipa técnica, desde 2016, em torno da sua geologia e o seu património. Neste sentido, temos dinamizado iniciativas na área da educação, da ciência, da interpretação turística e na comunicação que têm dado destaque internacional à, já por si importante, Serra da Estrela

P – Acha que esta distinção reforça a responsabilidade dos municípios no projeto?

R – Este prémio atribuído aos nove municípios vem reconhecer o apoio e a importância que estes atribuem ao seu património geológico, materializado na candidatura à UNESCO que subscreveram. Posto isto, creio que não há maior responsabilidade que aquela que a classificação da UNESCO nos dá a todos, não apenas aos municípios. A classificação como Geopark Mundial da UNESCO traduz-se numa estratégia intemporal que reforça a responsabilidade do território na salvaguarda e valorização do seu património geológico. Aliás, este compromisso é reavaliado de quatro em quatro anos, altura em que a UNESCO pode revalidar, ou não, a classificação que será formalizada este ano. Mas, obviamente, estes prémios, como o que agora foi atribuído aos municípios do Estrela Geopark, vêm reforçar a necessidade de continuar o trabalho que temos vindo a realizar até aqui. É necessário que se mantenha uma aposta clara nos princípios que orientaram este Geopark, promovendo um maior conhecimento dos recursos deste território e com isso a projeção nacional e internacional que permita a criação de riqueza para as populações, uma das condições essenciais de um Geopark Mundial da UNESCO. O trabalho de Geoconservação e de um Geopark, em sentido mais amplo, nunca termina. Este é um projeto intergeracional que só agora está a começar e que exige o envolvimento e compromisso de todos para que o feito internacional conseguido com esta classificação não se perca ou se torne inconsequente.

P – Como está o projeto neste momento?

R – Está a fazer o seu caminho que procura a consolidação deste Geopark e o envolvimento da própria população. Estamos a trabalhar como um Geopark, embora ainda se aguarde a ratificação por parte do Conselho Executivo da UNESCO, no sentido de potenciar as diferentes áreas de atuação (educação, ciência, geoconservação, turismo, comunicação e sustentabilidade). Neste contexto, temos desenvolvido um trabalho notável, reconhecido ao mais alto nível pela UNESCO, na área da ciência e educação, com a Rede de Ciência e Educação para a Sustentabilidade, na área do turismo, através da promoção territorial que tem sido feita e através da criação de uma rede de parceiros sólida, mas também ao nível da comunicação que tem sido uma das grandes apostas do Estrela Geopark. Paralelamente, estamos a trabalhar no reforço das redes nacionais e internacionais, com diferentes Geoparks já classificados, mas também com outro tipo de parceiros que atuam na Estrela. Portanto, o Geopark está como devia estar… a aprender todos os dias para fazermos ainda melhor, crescermos e fazermos deste território, com mais de 2.216 quilómetros quadrados, um exemplo daquilo que um Geopark deve ser. Não é por acaso que no território nacional existem vários projetos de candidatura à UNESCO. Exatamente pelo valor e relevância que o trabalho e a marca UNESCO nos dão, nomeadamente a notoriedade internacional. Por outro lado, neste momento este projeto irá iniciar uma segunda fase, após a integração oficial na Rede Mundial de Geoparks da UNESCO.

P – Para quando está prevista a confirmação da declaração como Geopark da UNESCO pelo Conselho Executivo?

R – Depois do adiamento do Conselho Executivo, devido à pandemia causada pela Covid-19, o Conselho reunirá entre 29 de junho e 10 de julho, durante o qual será ratificada formalmente a classificação da Estrela como Geopark Mundial da UNESCO.

P – O que mudou nos últimos dez meses desde a aprovação da candidatura, em setembro de 2019?

R – Em primeiro lugar, quero clarificar que a aprovação definitiva só ocorrerá este ano. Como disse, o trabalho de um Geopark é permanente e os resultados não são visíveis de imediato. Contudo, após a aprovação pelo Conselho Mundial e a consequente ratificação, que acontecerá daqui a menos de um mês, tem havido uma maior notoriedade do Geopark, facto visível no aumento da procura turística, no aumento de programas educativos e no número de projetos de investigação. Portanto, nos últimos dez meses, tal como nos próximos dez, continuámos a trabalhar em torno da afirmação deste Geopark e no desenvolvimento de estratégias que se materializem na melhoria das condições de vidas dos mais de 150 mil habitantes deste território.

P – Quais são os planos para o futuro? Que iniciativas contam concretizar?

R – Teremos de continuar este trabalho para garantir que daqui a quatro anos a UNESCO renove esta classificação. Caso contrário, perdê-la-emos. E esta é uma realidade que pode mesmo acontecer caso não haja o compromisso efetivo de todos os intervenientes neste processo, municípios, instituições de ensino e sociedade. Para o futuro queremos concretizar um conjunto de projetos que reforcem a valorização e promoção do território, nomeadamente:

– Melhoria da visitação e qualificação de alguns dos nossos locais de interesse geológico (geossítios);

– Implementação da Grande Rota do Estrela Geopark;

– Fomento da Ciência e do conhecimento científico deste território e do seu património;

– Maior envolvimento dos parceiros, nomeadamente através do desenvolvimento do Cartão Sustentabilidade, recentemente apresentado;

– Melhoria do Centro de Interpretação da Torre do Estrela Geopark;

– Afirmação internacional da Estrela como destino seguro e sustentável.

 

Perfil de Emanuel de Castro:

Coordenador Executivo do Estrela Geopark

Idade: 39 anos

Naturalidade: Portuguesa

Profissão: Geógrafo

Currículo (resumido): Licenciado em Geografia, com especialização em Estudos Ambientais; Mestre em Geografia e Ordenamento do Território, com a dissertação “Análise Integrada da Paisagem da Raia Central Portuguesa”; e Doutorando em Geografia, com a dissertação “A Serra da Estrela: Estratégias de Desenvolvimento Turístico e Promoção Territorial – Contributos da Geografia”. Docente do Instituto Politécnico da Guarda, entre janeiro de 2004 e setembro de 2017. Atualmente Coordenador Executivo da Associação Geopark Estrela, promotora da candidatura da Estrela a Geopark Mundial da UNESCO. Participou em diferentes projetos de investigação nas áreas do Turismo, Análise da Paisagem e Desenvolvimento Territorial.

Sobre o autor

Luís Martins

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