Cara a Cara

«A pandemia foi um verdadeiro apagão de Belmonte»

Escrito por Jornal O Interior

António Dias Rocha

P – Num concelho que tem apostado no turismo, qual é o impacto da pandemia da Covid-19 neste setor em Belmonte?
R – Um desastre. Uma verdadeira queda em dominó… em que todas as peças tombaram de um momento para o outro. Fecharam todos os museus e o castelo; cancelámos as tradicionais festividades de abril; adiámos o grande concerto com o brasileiro Martinho da Vila em julho e teremos de cancelar a Feira Medieval, em agosto. A somar a tudo isto, encerrou o comércio, cafés, hotéis, turismo local… Foi um verdadeiro apagão de Belmonte. Habituados a ter sempre turistas pelas ruas, convidados estrangeiros, eventos com muita participação, vemo-nos agora confinados a nós mesmos… dentro de portas. Mas é o momento de erguer a cabeça, porque tudo isto é um grande problema para as contas da autarquia, mas, sobretudo, colocou em causa toda a economia do sector, colocou em causa postos de trabalho, colocou em causa a rentabilidade das famílias… E quando falamos do turismo, é só um exemplo. O mesmo sucedeu com as confeções, com a agricultura, etc… As próprias entidades de apoio social foram forçadas a um esforço financeiro tremendo para proteger os grupos de risco. Mas importa sublinhar que não tivemos infetados com coronavírus no concelho, o que nos deixa muito satisfeitos. É preciso dar os parabéns a todas as entidades envolvidas, serviços de saúde, lares, bombeiros, GNR, Proteção Civil, Juntas de Freguesia e também ao comportamento cívico das nossas populações.

P – E quais são as consequências nos museus da vila? Quando será possível a sua reabertura?
R – Os museus estiveram em manutenção nestes tempos e reabriram esta semana, com todas as medidas de proteção impostas pela Direção-Geral de Saúde. Mas perdeu-se toda uma dinâmica que estava criada. Estão anuladas as visitas de muitas escolas – estamos a falar de centenas e centenas de crianças –, estão anulados grupos que vinham por agências de turismo, foram fechadas as fronteiras com Espanha… Foram anulados e/ ou adiados eventos que seriam acolhidos nas suas instalações, como é o caso dos Colóquios da Lusofonia. Até a BTL, a grande Bolsa de Turismo de Lisboa, foi anulada e era um ponto estratégico na nossa promoção. Mas a empresa municipal vai trabalhar com as agências, hotéis, alojamento local, comerciantes, restauração, para que possamos recuperar a dinâmica de sempre. Já recuperamos de outras crises, temos força, capacidade de reação e confiamos nas nossas potencialidades, no nosso património natural, na nossa cultura, na capacidade de acolher as pessoas. Os turistas já estão a regressar, logo chegarão em força. O ano de 2021 será em grande!

P – Qual vai ser a estratégia do município para relançar Belmonte nos roteiros do turismo brasileiro e judaico?
R – A nossa estratégia está implementada e vai continuar. Tivemos apenas um interregno no tempo, que não foi só nosso, foi global. Temos uma estratégia delineada com o Brasil, uma rede de interação com a Costa dos Descobrimentos, sobretudo com Porto Seguro e Cabrália. No ano passado assinámos um acordo de geminação com a capital financeira do Brasil, São Paulo. Estamos com relações com Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Há fortes ligações turísticas e empresariais que darão frutos muito em breve. A nossa ligação a Israel e à diáspora judaica continua forte, com muitas visitas. Não vamos perder esta dinâmica. Depois desta paragem 2021 tem tudo para ser um grande ano do ponto de vista turístico e económico, assim a situação do vírus a nível internacional permita desbloquear fronteiras e retomar as ligações aéreas normais.

P – No setor das confeções duas grandes empresas estiveram em “lay-off”. Está pessimista quanto ao impacto do coronavírus nesta atividade tradicional do concelho?
R – Este é um setor delicado pois tem grandes encargos fixos, muita mão-de-obra, o que exige uma capacidade de resposta financeira tremenda. Quer na importação de tecidos, como na exportação de peças confecionadas, vive muitos dos mercados espanhóis e italianos, que estão também mergulhados em crise profunda, pelo que a recuperação do sector não se afigura fácil. Ainda assim, temos empresários muito sólidos, com forte capacidade de gestão, que souberam readaptar as suas empresas a estes tempos difíceis com o mínimo de prejuízos para os trabalhadores. E, o que é muito importante, as empresas estão a regressar à atividade, estão de novo a enfrentar o mercado. Temos de acompanhar este esforço, apoiar estas empresas para que voltem a empregar pessoas e a criar riqueza. Estou confiante.

P – Como tem a Câmara Municipal acompanhado este problema?
R – Com muito empenhamento. Tem havido um contacto permanente com as empresas, as indústrias, o comércio. Vamos manter este diálogo alargado entre o poder político e os agentes económicos do concelho. Temos um gabinete de apoio ao investimento que está a estudar o impacto económico no concelho e as linhas estratégicas para recuperar setor a setor. Veremos como podemos agir caso a caso. A Câmara de Belmonte será sempre uma parceira segura e em breve retomaremos a nossa dinâmica. Os nossos empresários são arrojados e capazes e a nossa população é gente séria e trabalhadora, por isso vamos sair disto juntos e fortes!

Perfil de António Dias Rocha:

Presidente da Câmara de Belmonte

Idade: 69 anos

Naturalidade: Belmonte

Profissão: Médico

Currículo: Ocupou vários cargos na área da saúde; Presidiu ao Conselho de Administração da empresa Águas do Zêzere e Côa S.A; Foi presidente da Aldeias Históricas e dos Bombeiros Voluntário de Belmonte; Preside à Rede de Judiarias e à Associação de Municípios da Cova da Beira, bem como às Assembleias-Gerais da Resiestrela, Santa Casa da Misericórdia de Belmonte e dos Bombeiros Voluntários de Belmonte.

Sobre o autor

Jornal O Interior

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