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Veneno

Cobra sorrateira, pessoa maldosa, gente afiada, dente agudo e língua partida, são tudo coisas que me escapam. Chegam e mordem e partem caminhando para longe. Voltam ao crime depois, onde as dores agonizam quando os torpores antecedem o defunto. Veneno é um meio de combate, um modo de destruir um lugar. Há gente assim, com uma língua feroz, com uma palavra desconstruída, com um talento ácido, com um elogio que descoalha. Assim entrado veneno no rebanho é ver o corpo que se desordena, é perceber como a fila não se forma, como o carreiro não mais se junta. Veneno traz a discórdia, veneno traz a desmonta.

Veneno é um engenho, um talento natural, uma força da desordem.

Veneno pode ser bom se trouxer dúvidas a um lugar monótono, se trouxer frescura a relações moídas, se permitir devaneio a um rebanho esmorecido. Veneno pode ser uma arma na mão de uma liderança arguta, pode ser um tempero numa vida aborrecida, mas tem de ser gerido com arte e controlado com pinças. O veneno pode estar na boca da mãe, na crítica do pai, no comentário da avó. O veneno pode introduzir rancor e causar frustração. Onde havia amor, nasce dor. As inseguranças são terreno do veneno, os medos são a palha da embriaguez. Mas o veneno é importante entre os frascos que podemos gerir. Pior é a inércia, a modorra e a flacidez.

Por: Diogo Cabrita

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