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Tradições

Em Coimbra, nos anos oitenta, vivi na única república que se declarou anti-praxe desde os tempos da sua fundação. Por isso, mas também porque a praxe se encontrava suspensa desde ainda antes do 25 de Abril, sobrevivi incólume aos meus tempos de caloiro. Ninguém me deu ordens, me humilhou, ou me tentou obrigar a fazer o que eu não quisesse. Na República, pelo contrário, rapidamente me deram responsabilidades e me obrigaram a tomar decisões.

Dois dias depois de ser admitido, tive de votar às quatro da manhã numa magna questão de que já não recordo os detalhes mas que dividia “a casa” (era assim que lhe chamávamos) em dois grupos antagónicos. A decisão a tomar podia implicar uma expulsão, algo que mancharia para sempre o que era suposto serem os melhores anos da vida de um dos envolvidos. Eu era dos mais novos, senão mesmo o mais novo, mas pensava já que sabia o que era uma democracia até que chegou a minha vez de falar (era dada a palavra a todos, à vez), de votar e de justificar a minha decisão na presença de todos e, sobretudo, dos envolvidos – sim, que o voto não era secreto nem anónimo e a abstenção não era bem vista. Ninguém foi expulso nessa noite mesmo não se tendo resolvido o problema de base, e este ainda persiste passados quase trinta anos.

Algum tempo depois, chegou a minha vez de gerir a casa durante um mês inteiro. Tive de recolher as contribuições individuais, pagar a renda, o ordenado da empregada, a água, a luz e o telefone, dar dinheiro aos “gerentes semanais” para fazerem as compras de acordo com as ementas que eu próprio tive de elaborar e fazer chegar o dinheiro até ao final do meu mandato – sem défice e apresentando no final contas justificadas ao centavo.

É claro que há outras formas de se alcançar a integração na vida académica. Pode-se por exemplo andar com penicos na cabeça, rastejar perante os “veteranos”, andar de cuecas ou sem elas na rua, recitar imbecilidades a pedido, beber até cair, medir com um fósforo a Porta Férrea ou as Escadas Monumentais e ser tratado durante meses, basicamente, como um bicho. Podem pensar que isso é bom, mas um dos problemas desse tratamento é que se repercute para a frente e os seviciados gostam depois de seviciar. É como as crianças que vêem o pai bater na mãe e acabam por bater, décadas mais tarde, na sua própria mulher. Outro problema é que se acaba por encarar a abjecção, a abdicação ao amor-próprio, à dignidade, como uma coisa normal. Para além disso, funciona como um belo pretexto para alguns psicopatas poderem dar vazão aos seus mais baixos instintos.

É evidente que, enquanto houver sádicos e masoquistas, e sobretudo imbecis de ambas as tendências, não se pode acabar com a praxe. Esta vai continuar até ao fim dos tempos, contrariamente à minha república, que vai ser declarada morta daqui a poucas semanas numa das reuniões de casa mais pacíficas de sempre. Uma coisa posso jurar: as contas no final vão bater certo, vamos continuar a encontrar-nos e não vamos ficar a dever nada a ninguém.

Por: António Ferreira

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