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Protetorado

Theatrum Mundi

A tese do governo quanto àquilo que somos enquanto país e comunidade, repetida à saciedade nos últimos tempos pelo vice-primeiro-ministro Paulo Portas, é que Portugal está reduzido a um protetorado. Não faltam teses, nos dias que correm, sobre a crise e o que ela representa para o país, e o ambiente de crispação política que se vai acentuando tem muito que ver com uma certa guerra de narrativas. Cada ator político tem a sua e faz derivar dela os caminhos que propõe para ultrapassar a crise. O enfrentamento entre PS e PSD/CDS, entre Seguro e Passos/Portas, cada vez mais acesos e a roçar a intransigência política e pessoal, são legitimados diariamente nas respetivas narrativas da crise. Nessas narrativas, não só diverge o diagnóstico da crise e os remédios para a ultrapassar mas, o que é mais crítico, a identificação dos motivos que levaram o país à crise profunda em que se encontra e a quem deve ser imputada a culpa por tal tragédia. Para o PS, a culpa é do PSD de Passos que se recusou a apoiar o PEC 4 e tornou inevitável o pedido de ajuda externa e o desembarque da troika no Terreiro do Paço. Para o PSD, o PEC 4 era totalmente desadequado e insuficiente e apenas procurava maquilhar a incapacidade do governo Sócrates e a sua responsabilidade na crise. As duas narrativas apontam jogadas políticas e acusam o opositor de deslealdade e taticismo político na condução da política da crise. Aliás, o regresso de Sócrates ao comentário político na RTP, ao domingo, acentua um certo caráter homilíaco e profético cada vez mais presente nas várias televisões, com recurso a oficiantes que têm muito a ganhar e a perder com os comentários que produzem e os resultados dos recados que disparam.

Também é impossível não reparar na deslocação da narrativa da maioria PSD/CDS. Em 2011, o programa da troika era o programa assumido pelo governo, sem reservas ou, se elas existiam, tinham que ver com a necessidade de levar a transformação mais além, custasse o que custasse. O governo assumiu-se como força regeneradora da Pátria, como força punitiva dos excessos de um passado insustentável e, portanto, como força verdadeiramente patriótica que assumia nas suas mãos as rédeas da liberdade soberana. A escolha de uma certa fórmula para sair da crise, assente na destruição regeneradora e catártica da austeridade total, foi assumida como escolha livre de uma vanguarda esclarecida e patriótica. Ou como sublinhou por estes dias o economista Paul de Grauwe, Passos e associados procuraram ganhar o concurso de beleza com a austeridade mais bela, uma austeridade de manual digna da admiração causada pelo melhor aluno ao seu professor.

Quando Portas fala em protetorado até à náusea, está de facto a contradizer aquela narrativa. Agora, o programa de governo já não é da responsabilidade do governo. O orçamento de estado já não é aquele que o governo queria, mas aquele a que é obrigado por forças externas. O governo parece já não querer ser mais papista que o papa, ou mais troikista que a troika, mas quer mostrar-se como o garante da recuperação da soberania e recolher os louros da expulsão da troika em 2014. Subliminarmente avança-se com a metáfora da defenestração de Vasconcelos, mas Portas corre o risco de ser ele próprio tratado como Vasconcelos. Por um lado, Passos e Portas invocam o protetorado para se desresponsabilizarem face às políticas de austeridade (agora há forças externas que não lhes deixam alternativa); por outro, vestem o fato do patriotismo na luta contra a permanência da troika para lá de 2014. Nisto, procuram mostrar que a austeridade não é mais que estratégica, um mal menor e a condição para recuperar a soberania perdida. Em busca de uma narrativa legitimadora (e eficaz para as próximas legislativas), Passos e Portas apostam tudo no fim do programa de assistência e no famigerado regresso aos mercados. Segundo resgate, programa cautelar ou seguro… tudo pode não passar de subtileza semântica. Contudo, na estratégia eleitoral de Portas e Passos as palavras contam. Chegados a este ponto, o único que ainda podem salvar é a ilusão do regresso a uma normalidade tranquilizadora.

Por: Marcos Farias Ferreira

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