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O crime expiado do Jarmelo

Morte de Inês de Castro aconteceu há 650 anos, antiga vila medieval do concelho da Guarda continua abandonada e esquecida

Há 650 anos que o Jarmelo tem contas a acertar com a história. Desde 7 de Janeiro de 1355, mais precisamente, quando Inês de Castro morreu às mãos de, entre outros, Pero Coelho, fidalgo da corte de D. Afonso IV e filho da terra. De então para cá a fatalidade é visita regular da antiga vila onde as lendas e os mistérios parecem ter substituído os residentes. Outrora atalaia da fronteira com Castela e vila próspera, o local é hoje uma fantasmagórica sede de freguesia sem habitantes, marcada pelo esquecimento e uma maldição com sabor a sal. Mas o Jarmelo, uma das localidades mais emblemáticas do concelho da Guarda, resiste em 2005, já declarado o Ano Inesiano da Cultura, altura certa também para uma reconciliação esperada por o crime já ter sido duramente expiado.

Contudo, a tragédia romanceada tudo apagou da memória. Só assim se compreende que o monte que foi também cenário dos amores de D. Pedro e D. Inês não tivesse sido abrangido pelas comemorações culturais evocativas da funesta efeméride. Como sempre, tudo se irá passar longe daqui, em Coimbra, Alcobaça e Montemor-o-Velho, impulsionado pela Fundação Inês de Castro. Não é que alguém exija alguma contrapartida pelo fardo pesado do passado, mas há quem ache bem recordar que por lá se namoraram o príncipe e a sua amada, tendo sido também para o Jarmelo que D. Inês foi desterrada por D. Afonso IV a conselho de Pero Coelho e outros. Ali ficava mais segura e vigiada com rigor. Por isso, Agostinho da Silva, secretário da Junta de São Pedro do Jarmelo, dirigente associativo local e cicerone ocasional, acredita que a «verdadeira história» de “Romeu e Julieta” aconteceu no Jarmelo muito antes de Shakespeare a escrever. Para além de ligar Portugal a Espanha: «Vistas as coisas de uma perspectiva menos apaixonada, os assassinos agiram da melhor forma do ponto de vista da defesa da integridade da nação», acredita.

Mas as consequências foram devastadoras para o Jarmelo, «Portugal desde sempre», como o comprova o foral de D. Afonso Henriques em data não apurada, recorda Agostinho da Silva. Em 1357, D. Pedro, mais tarde conhecido como “O Justiceiro”, mandou arrasar a vila e salgar as suas terras num gesto de maldição e extermínio. Destino pior conheceu Pero Coelho, cujo coração lhe foi arrancado em vida. A vingança e ira real afastaram gentes e marcou o local para sempre. Em 1375, D. Fernando mandou reedificar a fortificação, mas o Jarmelo não voltou a atingir a importância que tivera. A maldição começava a cumprir-se e no século XV foi a população que custeou as obras nas muralhas. E nem o foral concedido em 1510 por D. Manuel valeu de grande ajuda. O golpe final aconteceu já em 1855 com a extinção do concelho e o abandono progressivo da povoação, que aos poucos se foi transformando em ermo.

Falta estudo histórico-arqueológico

Não faltam por isso argumentos e lendas para pôr em prática um plano de recuperação para valorizar o local. «Falta um estudo histórico-arqueológico aprofundado do Jarmelo. Era expectável que a Câmara da Guarda e o IPPAR pudessem aproveitar o momento para conhecer e divulgar melhor este património, mas nada teima em acontecer», lamenta Agostinho da Silva, que se queixa de um esquecimento «secular» do monte, «que já leva 500 anos de atraso». De resto, considera não haver motivos para comemorar quando ainda falta água e saneamento em algumas anexas da freguesia. «Enquanto esse problema não estiver resolvido, nenhum habitante vai entender qualquer investimento na zona histórica», acrescenta o autarca. O antigo castro, classificado em 1953, juntamente com a envolvente, como imóvel de interesse público, está em ruínas e é pasto de silvas, giestas e outros arbustos. Só alguém bem informado conhece o passado do monte, porque também não há sinalética nem informação. E, sem ajuda, bem podemos procurar a Fonte de D. Inês, a mítica Pedra de Montar – onde, reza a lenda, a rainha montava o seu corcel – ou mesmo o solar do malfadado Pero Coelho. A zona está desabitada há largas dezenas de anos e só a missa dominical, os funerais ou a feira anual trazem gente ao monte.

650 anos depois, o Jarmelo continua a ser um mistério, mas, segundo Agostinho da Silva, a sua fama tem continuado a atrair garimpeiros que buscam moedas e outras peças em ferro. Aparecem também alguns turistas, só que a falta de vida diária no monte, de onde se avista Marialva, Trancoso, Pinhel, Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, Castelo Bom e a raia espanhola, torna inviável qualquer revitalização ou aproveitamento turístico. «Temos que começar pelos próprios habitantes da zona [há 14 anexas], dar-lhes a conhecer o passado e motivá-los a regressar às origens, nem que seja durante o dia. Paralelamente, espera-se que os responsáveis pelo património em Portugal olhem para este local com olhos de ver, sem esquecer a Câmara da Guarda, que continua a não saber o que fazer com o Jarmelo», refere. Mas perdida esta oportunidade do Ano Inesiano da Cultura, Agostinho da Silva já tem uma alternativa: os 500 anos do foral de D. Manuel em 2010.

Luis Martins

Comentários dos nossos leitores
J. Marques marquesj475@gmail.com
Comentário:
Sou natural dessa região e conheço um pouco da historia da vila do Jarmelo. O texto acima fala de Pero coelho e as tantas diz : (Destino pior teve Pero Coelho cujo coração lhe foi arrancado em vida)Isto segundo a historia não e verdade, Pero Coelho terá sido o único a fugir para o estrangeiro dai a fúria do rei D. Pedro em mandar arrasar a Vila. 9
 

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