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Marialva, o planalto das Lendas

Terra que outrora foi de Damas e Cavaleiros, hoje atrai visitantes que vão em busca de sossego – quer pela beleza, quer pela hospitalidade das suas gentes

Erguem-se as muralhas céu adentro, sem limites, sem tempo. Recortam o azul que inunda a paisagem. Tranquilas, adormecidas como uma princesa medieval. No seu interior, escombros de histórias passadas, em frenesim na altura das feiras, um pelourinho e uma cadeia onde foram julgados muitos crimes. Marialva encerra um planalto de vidas, ecos de memórias, de amores e hoje, apenas os murmúrios do vento e a altivez da solidão.

A freguesia dista cerca de 17 quilómetros da sua sede de concelho e é uma das 12 Aldeias Históricas. Apesar de não se poder afirmar com toda a certeza qual a origem do nome de Marialva, crê-se que tenha sido atribuído por Fernando Magno, em homenagem à Virgem Maria (Maria Alba), visto o culto mariano ser uma prática comum entre os séculos XI e XII. No entanto, há também quem diga que o nome da localidade está relacionado com a lenda da Dama dos Pés de Cabra.

Conta a tradição que havia na aldeia uma moura com pés de cabra, cujo nome era Marialva, e que um dia, ao revelar que a sua paixão por um cavaleiro cristão, se terá atirado da torre onde vivia.

Histórias ou ficções à parte, Marialva é constituída por três aglomerados populacionais. A cidadela, entre muros, habitada até ao início do século XX, está actualmente em ruínas; a vila, que possui ainda várias características quinhentistas; e a Devesa, que se estende para a planície, onde corre a ribeira de Marialva. Também José Saramago, no livro “Viagem a Portugal”, fez uma referência a Marialva: «É este conjunto de edificações em ruína, o elo misterioso que as liga à memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos», descreve. Esta inscrição, que retrata os sentimentos de qualquer visitante, pode ser encontrada numa rocha situada no sopé da Torre de Menagem.

Esta pequena Aldeia Histórica, repleta de construções que evocam um passado glorioso, das quais se destacam a muralha da antiga vila e a Torre de Menagem, terá sido em tempos bastante importante em termos defensivos. O castelo é o seu principal “cartão de visita”. No planalto das igrejas, dentro das muralhas, a visão é simplesmente encantadora e deslumbrante. Do alto consegue-se avistar uma imensidão de terras, o “povo de baixo” e o “povo de cima”, tal como o monte e a serra.

A nível de património religioso, os visitantes podem ainda deslumbra-se com a Capela da Misericórdia, também conhecida como Capela do Senhor dos Passos, do século XVII em estilo maneirista de inspiração clássica. Descendo à vila, junto ao Largo do Cruzeiro, pode visitar-se a Capela de Nossa Senhora de Lourdes e as sepulturas antropomórficas que ficam nas traseiras. Ainda na vila não deixe de visitar a igreja de São Pedro, do século XVII, que possui magníficos altares barrocos em talha dourada e pinturas murais. Também a Capela de Santiago merece uma visita. Edificada em 1585, o templo apresenta várias características manuelinas e barrocas, constituída por uma nave rectangular única de cobertura em abóbada de berço, uma capela-mor totalmente revestida a talha sem pintura e sacristia anexada.

Mas há muito mais para visitar e apreciar. Outra das referência históricas da vila é, naturalmente, o pelourinho, com características manuelinas, que datará possivelmente do século XVI, tal como a antiga cadeia, o tribunal e a casa do magistrado.

A terra que outrora foi de Damas e Cavaleiros, atrai hoje os visitantes que vão em busca de sossego quer pela beleza, quer pela hospitalidade daquelas gentes que ali permanecem. Marialva é, indubitavelmente, um lugar de passagem obrigatória para quem visita a região.

A lenda de Maria Alva

Diz a lenda que Marialva deve o seu nome a Maria Alva, uma linda e misteriosa dama moura que nunca mostrava os pés, nem às suas aias. Só que uma delas começou a desconfiar que, porventura, poderia existir algo de estranho nessa atitude da encantadora donzela e decidiu fazer alguma coisa para descobrir a verdade.

Assim, uma noite, enquanto Maria Alva dormia, a aia espalhou farinha no chão junto à sua cama. Entretanto, por alguma razão, a dama levantou-se de noite e saiu do quarto. No dia seguinte, quando a aia foi ver o chão onde tinha deitado a farinha, não ganhou para o susto. É que, em vez de pegadas de delicados pés femininos, no chão encontravam-se marcadas as patas de uma cabra. Ao descobrir que Maria Alva era, afinal, o demónio, a população perseguiu-a para a queimar viva. Maria Alva, vendo que não teria salvação, amaldiçoou a vila antes de se atirar do alto da torre do castelo.

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