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Liberais de conveniência

Ciclicamente aparecem os ideólogos do ‘liberalismo de rosto humano’ para modernizar a esclerosada direita nacional. No CDS foi a ala de Pires de Lima que morreu ainda antes de nascer. Agora, no PSD, é Pedro Passos Coelho. É provável que ganhe o partido, pouco familiarizado com debates ideológicos, mas quando andar à conquista de votos terá de meter a viola liberal no saco.

Na verdade, não faltam liberais em Portugal quando se fala de privatizações de serviços públicos. Durão Barroso defendeu a privatização da CGD. Passos Coelho também defende. Um esqueceu e outro esquecerá, porque os empresários nacionais precisam de um banco público para as horas difíceis. Os nossos liberais fazem voz grossa contra a intervenção do Estado na economia mas desaparecem quando se assinam acordos com a Lusoponte ou quando empresas de construção civil financiam os partidos de poder à espera de bons negócios. Não faltam liberais para flexibilizar as leis laborais. Mas os liberais somem-se quando administradores decidem para si próprios indemnizações pornográficas que lhe garantem segurança até ao fim da vida. Não faltam liberais em defesa de impostos mais leves para as empresas. Mas os liberais transfiguram-se para pedir ao Estado que garanta que os ‘centros de decisão’ não saiam do país.

Em Portugal há apenas liberais de conveniência, de que Passos Coelho é apenas mais um exemplo: há que parecer diferente de Sócrates. Mas não vale a pena levar-se demasiado a sério. O centrão apenas gere privilégios. Quando o mais fraco se trama chamam-lhe liberalismo. Quando o mais forte se safa chamam-lhe interesse nacional. Podem aparecer franco-atiradores à procura do seu nicho de mercado, mas depois passa-lhes. Descobrem que a elite que os sustenta vive há décadas protegida por um mercado condicionado. Não quer menos Estado. Quer o Estado só para si. Em Portugal, um jovem de direita que não seja liberal não tem irreverência. Um velho de direita que continue liberal não tem juízo.

Consenso cubano

George Bush usou o Parlamento israelita para atacar Obama e compará-lo com Chamberlain. Obama agradeceu. Ter os republicanos reféns de Bush é tudo o que ele precisa. Ter os seus adversários a atacá-lo em visitas ao estrangeiro ainda melhor. O argumento, que McCain acompanha, é sempre o mesmo: Obama é um apaziguador. A acusação foi feita a propósito do Irão, do Hamas e, esta semana, foi a vez de Cuba. Tudo porque Obama tem defendido uma velha invenção da civilização: a diplomacia.

Refém da extrema-direita cubana de Miami, que já levou os EUA a desastrosas aventuras, as sucessivas administrações têm mostrado uma estupidez assinalável nas relações com Havana. As evidências deviam ter feito pensar: o bloqueio a Cuba, de qualquer ponto de vista injustificável, tem dado à família Castro todos os argumentos para manter a retórica de guerra e unir o orgulhoso povo cubano contra o inimigo comum. É fácil de explicar mas tem sido difícil de entender: a democratização cubana nunca passará por um envolvimento directo de Washington e ainda menos dos ressabiados de Miami. Esse é o único consenso em Cuba.

Por: Daniel Oliveira

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