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Do jardim José de Lemos…

Agora Digo Eu

Num esforço consciente, onde a História e a memória andam de mãos dadas, é absolutamente necessário interpretar todos os factos que fazem parte do nosso passado, mesmo sabendo que a História, a de todas as histórias, tem por base eventos, testemunhos e pergaminhos.

Cidade da Guarda, finais dos anos 50.

Humberto Delgado, acompanhado de Maria Iva e Iva Delgado, respetivamente esposa e filha, está na cidade mais alta em campanha eleitoral para a Presidência da República, numa sexta-feira, 30 de maio de 1958.

A nossa cidade respirava o ar puro da liberdade, que teimava em chegar. O apoio foi dado por centenas de guardenses, o que fez com que Delgado fosse recebido de braços abertos numa verdadeira contestação ao regime que o haveria de assassinar.

Homens como Manuel Conde, Manuel Gião, donos de empresas, Eurico & Pina, Carvalho dos Santos, a Gráfica (cujo filho do senhor Pires, António Pires, haveria de ser deputado na Assembleia Constituinte), sempre acompanhados pelo grande democrata Dr. João Gomes, dispensaram funcionários e todos eles estiveram presentes em frente ao Hotel Turismo, onde, desde a varanda da suite principal, Delgado apelou ao voto para que fosse possível realizar o sonho de terminar com a ditadura em Portugal.

Segundo nos conta Carlos Esperança, Horta Pinto, Luís Grave, Dinis Alves, Nuno Costa, os alunos do Liceu Nacional da Guarda foram impedidos de estarem presentes, sendo que na tarde desse longínquo 30 de maio de 1958 todos eles foram obrigados a ir a uma palestra, cujo preletor, o professor de português, Dr. Ferreirinha, natural da freguesia de Pega, dissertou sobre a peça de Gil Vicente “Quem tem farelos”. Isso não impediu que um grupo mais destemido conseguisse sair à socapa e marcar presença, tendo por consequência a sua suspensão por parte do reitor do regime, de nome Rabaça.

Depois de discursar na varanda do Hotel Turismo, Humberto Delgado seguiu para o Jardim José de Lemos onde depositou uma coroa de flores no monumento aos mortos da Grande Guerra. Aí o “Zé Grande” fez questão de colocar a sua capa académica nos ombros do general, o que fez com que a cólera policial disparasse, seguindo-se a grande carga captada pelas câmaras fotográficas e onde teve participação especial o fotógrafo senhor Armando, grande democrata e antifascista, da empresa Foto Armando, que tendo registado toda a cena de pancadaria e brutalidade, negou posteriormente entregar a máquina e o rolo à polícia.

Delgado semeou na Guarda ventos de Liberdade, pagando com a própria vida a ousadia de enfrentar o regime. O Jardim José de Lemos é testemunha de um dos episódios que o fascismo protagonizou.

Dizem-nos que a lápide que evoca a carga policial e a passagem de Delgado pela Guarda, no decorrer das obras de requalificação, ficou danificada. Pois bem, se o jardim sem a dita lápide não deveria ter sido reaberto e, se bem conseguirmos aplicar alguma sensibilidade e sentido de oportunidade, colocada que foi na semana passada, em local escolhido pela autarquia, passa completamente despercebida, permito-me sugerir que se recoloque, dando-lhe destaque, importância e dignidade, e já agora, se comemore e se recorde em 28 de maio de 2017 os 59 anos desta história passada no jardim da nossa cidade.

Isto para mantermos o respeito pela História. Para memória futura.

Por: Albino Bárbara

Comentários dos nossos leitores
Lídia Santos lidiajbs@ gmail . Com
Comentário:
Aprovo na íntegra. Dou os parabéns ao Albino Bárbara, pela coragem, frontalidade e patriotismo como expôs e enfrentou uma realidade nada democrática.
 

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