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Castas com potencial

A África do Sul e Portugal, ambas terras de vinho, são, respectivamente, os nono e décimo produtores no mundo. A província de Cabo Oeste, com uma área igual à de Portugal, é o coração da viticultura sul-africana, produzindo uns 9,3 milhões de hectolitros por ano, contra os 7,5 milhões de Portugal.

Encontra-se melhor vinho no Cabo do que em Portugal? Não – mas há diferenças interessantes que sugerem que os vinhos da Beira Interior têm oportunidades para vender mais em Portugal e no estrangeiro. Portugal tem muitas castas próprias e nobres, mas o Cabo não. Ali, como em Inglaterra, o consumidor começa a cansar-se do lago global de chardonnay, sauvignon, cabernet e merlot. Portugal podia explorar muito mais cada casta própria, criando delas uma marca forte no vinho, sempre bem visível no rótulo.

No Cabo, o vinho é identificado e vendido sobretudo pela casta: “Van Loveren Colombar 2007” ou “Swartland Cabernet-Merlot 2006”. Estes são exemplos de vinhos com preços na casa dos dois ou três euros, mas os caros não fogem à regra, embora encontramos mais nomes registados, como o “Meerlust Rubicon”. Na Beira Interior, castas autóctones como a Marufo, Rufete, Tinta Carvalha, Trincadeira Preta, Bical, Fonte Cal, Malvasia Rei, Rabo de Ovelha e Síria são nomes mágicos. As monocastas vêm geralmente das quintas, mas podiam revitalizar muitos outros vinhos já bem estabelecidos no mercado, criando assim interesse e mais variedade.

Imaginemos um “Terras de Cabral Síria”, ou “Frei Bernardo Trincadeira 07”, “Frei Bernardo Síria-Malvasia Fina 2006”, ou “Judiaria Touriga Nacional 2006”. A vantagem é clara para Portugal.

Carisma: O interior é uma terra com carisma, vista por muita gente, dentro e fora de Portugal, como a coração do país. Quando eu falo da raia, em Lisboa ou em África, muitos portugueses (e outros) defendem que o interior é «o verdadeiro Portugal».

Devemos juntar aos nossos vinhos mais da identidade desta terra vazia e dramática, com o seu granito, espaço, Aldeias Históricas e o “romance” de lendas e guerras na fronteira castelhana. Precisamos das palavras certas. Abandonemos as imagens cansadas que deixam pensar em Coimbra, Viseu e Dão. Os novos rótulos para o interior precisam de palavras fortes, com atmosfera: Interior, Raia, Rochas, Zêzere, Contrabando, Outono, Fronteira. Imagens de um interior remoto, imponente, dramático, de um Portugal étnico.

À Rota da Beira Interior não faltam, felizmente, cidades e aldeias belas e históricas, entre Castelo Rodrigo a Norte e Fundão a Sul, com mais de 20 cooperativas e quintas estabelecidas ou novas.

No novo rótulo (sempre usando dois) não devemos esquecer o mapazinho e de mencionar no texto pequeno até as freguesias de origem no DOC ou da Região… Há nomes evocativos como Carvalhais, Freixo, São Pedro de Cima, Vilarinho, Souto Novo… Com algumas palavras inglesas, claro. E o ano de vindima.

Para o consumidor estrangeiro, tais detalhes fazem o produto menos anónimo; para o taxista em Lisboa, ou o estudante português em York, podem matar saudades: «Olhe aqui Marialva! O meu pai nasceu lá…».

Vantagem: Portugal.

Mulheres: Muitos vinhos do Cabo vão ao Reino Unido, ao Norte da UE e aos EUA. Naqueles países, como no Cabo, são cada vez mais as senhoras que compram o vinho, mulheres para quem este é uma parte normal das compras, um elemento leve e saudável na afamada dieta mediterrânica.

E a escolha é cada vez mais entre os brancos, hoje menos secos e com mais fruta do que no passado. Os três vinhos mais exportados do Cabo são

Brancos. O líder é um chenin blanc, seguido pelo chardonnay, sauvignon e cabernet. Vantagem, de momento: o Cabo.

Rotas e Vendas: Até os mais pequenos “co-ops” do Cabo mantêm um balcão sempre aberto para vendas. Ninguém foge a regra. Com dez castas já no balcão para provar, pode-se comprar duas garrafas, ou encher o carro.

Alguns têm um snack-bar e loja; há quintas que são destinos completos com “chalets”. Vantagem: talvez o Cabo.

No restaurante: Infelizmente, à mesa em África do Sul, pagam-se preços altos para vinhos ordinários – uma lamentável herança dos anos de licenças e ganância. Vantagem: Portugal.

Finalmente, a idade: vantagem que Portugal podia explorar mais. Vinho “restaurant-ready” (pronto para beber) encontra-se muito no estrangeiro, mas se queremos vinho com três ou quatro anos de idade, ou mais, encontra-se muito nas garrafeiras do interior. Para comprar aqui.

Por: Rory Birkby

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