Sociedade

Concordância ferroviária das Beiras ameaça Estação da Guarda

Escrito por Luís Martins

Ninguém assume essa subalternização da Guarda, mas na passada quinta-feira, em mais uma sessão das “Conferências da Guarda”, ficou bem patente que algo vai mudar e não será necessariamente para melhor. Isto porque a conclusão da linha da Beira Baixa, prevista para o final do ano, vai abrir um novo corredor entre Lisboa e Espanha sem passagem e paragem na Guarda.

A Guarda vai ficar a ver passar muitos comboios com a conclusão da concordância das Linhas da Beira Alta e Beira Baixa. O projeto ameaça a centralidade regional da cidade mais alta na ferrovia, pois a junção das duas vias acontece a pouco mais de um quilómetro da Estação por onde deixarão de passar muitas composições de mercadorias, mas também de passageiros, com essa ligação futura.

Por enquanto, ninguém assume essa subalternização da Guarda, mas na passada quinta-feira, em mais uma sessão das “Conferências da Guarda”, ficou bem patente que algo vai mudar e não será necessariamente para melhor. Isto porque a conclusão da linha da Beira Baixa, prevista para o final do ano, vai abrir um novo corredor entre Lisboa e Espanha sem passagem e paragem na Guarda. A O INTERIOR, José Clemente, diretor de Empreendimentos da Infraestruturas de Portugal (IP), que participou na sessão, garantiu que a concordância da Beira Alta com a Beira Baixa na zona dos Galegos (seta 2) «não tem nada a ver» com a Estação da Guarda (seta 1). «Tem basicamente a ver com o transporte de mercadorias, pois permitirá que os comboios que venham da Beira Baixa não tenham que vir à Guarda para depois fazer o movimento para ir para Espanha. Isso não afetará os comboios de passageiros», disse o responsável.

Concordância das Linhas da Beira Alta e Beira Baixa far-se-á na zona dos Galegos (seta 2), a cerca de um quilómetro da Estação da Guarda (seta 1)

Segundo José Clemente, a concordância das Beiras gera «uma vantagem de exploração» na área das mercadorias e «não tem interesse» para o transporte de passageiros. «É um projeto que não limita, nem retira nenhuma capacidade à Estação da Guarda, pelo contrário», sublinha. O diretor de Empreendimentos da IP exemplifica que, durante as obras na linha da Beira Alta, «um comboio internacional que vá para Lisboa não faz a concordância e deixa a Guarda para trás, vem à Estação da Guarda e depois segue para a Covilhã». Já o contrário não está garantido, ou seja, que um comboio de passageiros saído de Lisboa em direção à Europa pare na Guarda antes de seguir pela concordância. Basta olhar para o mapa para constatar que a Covilhã está muito antes, o que pode garantir à cidade vizinha uma nova importância nas ligações internacionais por ser a penúltima estação de comboios na Linha da Beira Baixa antes de Vilar Formoso.

O assunto não preocupa a Câmara da Guarda. O vice-presidente Sérgio Costa garante mesmo que «não haverá subalternização» da Estação da cidade mais alta. «Os comboios de passageiros terão que vir sempre à Guarda, até porque a Linha da Beira Baixa está a ser remodelada até à Estação ferroviária, que tem todas as condições para receber passageiros», declarou o autarca, ressalvando, no entanto, que a questão deve ser colocada à CP. Sérgio Costa refuta também a ideia que a construção da variante para a Sequeira e de uma nova, entre a zona do “retail park” e os Galegos, bem como da requalificação dos acessos à Estação sejam uma contrapartida da IP. «A empresa está obrigada, no âmbito do Ferrovia 2020, a fechar todas as passagens de nível e é isso que vai fazer com estas intervenções», acrescentou Sérgio Costa. Segundo o vice-presidente do município, as duas variantes serão executadas pela Infraestruturas de Portugal, enquanto os custos da melhoria das acessibilidades apo terminal ferroviário serão repartidos entre a empresa e a autarquia. «Esta última intervenção aguarda despacho do Ministério das Finanças para avançar», acrescenta o responsável.

Linha da Beira Baixa pronta no final do ano

Polémica à parte, José Clemente revelou nas Conferências da Guarda que o último troço da Linha da Beira Baixa, entre a Covilhã e a Guarda, estará pronta no final deste ano e em janeiro estará «garantidamente» em operação comercial.

«Concluídas as obras, a IP tem que certificar a linha em termos europeus e realizar os ensaios para verificar se está tudo ok. A partir daí, cabe ao Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) dar autorização para circulação. Isso deve acontecer no último trimestre deste ano», declarou o responsável. Segundo o diretor de Empreendimentos da Infraestruturas de Portugal, os atrasos que houve – a linha devia estar concluída há um ano – ficaram a dever-se «deficiências e desconhecimentos do projeto, que teve que ser atualizado dado o estado de degradação da linha, porque esteve fechada dez anos e não estava completamente visível».

José Clemente confirmou também que o futuro terminal de mercadorias na Estação da Guarda só vai avançar após a conclusão das obras de modernização da Linha da Beira Alta. «Vamos precisar desse terreno para depositar materiais inerentes à empreitada. Só depois será lançado novo concurso, o que está previsto, supostamente, para finais de 2023. Nessa altura o terminal terá um enorme potencial, pois vamos aumentar a capacidade de transporte de mercadorias pela Beira Alta e a Guarda passa a ser muito mais interessante para os operadores do que foi até hoje», garantiu o representante da IP.

Câmara da Guarda investiu 40 milhões de euros desde 2014

A Câmara da Guarda investiu ou está a aplicar 40 milhões de euros em infraestruturas e equipamentos desde 2014 com apoios do atual quadro comunitário.

A revelação foi feita por Sérgio Costa no final das “Conferências da Guarda”. «São investimentos já concretizados ou a concluir até 2022 com o apoio de fundos comunitários e da Infraestruturas de Portugal, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, do POSEUR – Programa Operacional Sustentabilidade e da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro. Na sessão da passada quinta-feira, a secretária de Estado da Valorização do Interior, Isabel Ferreira, considerou que o país deve «assumir a centralidade» dos territórios de fronteira tendo em conta que do outro lado «existe um potencial de mercado imenso» e um número populacional «também muito maior». Para a governante, é preciso desenvolver «várias iniciativas de valorização da fronteira. Até mesmo trabalhar na partilha de recursos, nomeadamente de serviços dos dois lados».

Sobre o autor

Luís Martins

Deixar uma resposta