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Os “maios”, os bonecos que reabitam o Manigoto e a Atalaia

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Escrito por Efigénia Marques

Em maio, estas duas aldeias do concelho de Pinhel tentam trazer alguma dinâmica e alegria às ruas e aos seus habitantes através de bonecos que antigamente tinham diferentes funções

A viagem pela aldeia do Manigoto, no concelho de Pinhel, com Lurdes Rocha, Maria Gonçalves e Regina Simões, promotoras da iniciativa juntamente com Aida Gonçalves e Fernanda Fernandes, que não puderam estar presentes, começa no Largo da Igreja onde se encontram os primeiros “maios”: os noivos.
«Viemos colocá-los à meia noite e meia, que era para quando as pessoas acordarem no primeiro de maio verem logo estes bonecos», revela Lurdes Rocha. Os “maios” são bonecos em tamanho real confecionados pelos habitantes da aldeia com roupas e materiais que cada um tem em casa e disponibilizam, e que regressaram à aldeia pinhelense no ano passado. Sendo a mais velha, Maria Gonçalves recorda que a sua mãe lhe contava que, «antigamente, as pessoas metiam as giestas, que são “as maias” com flores amarelas, à porta com um boneco para afugentar o mau olhado, os espíritos…». E «tal como me lembram outras coisas que até vamos fazendo, esta também foi pelas recordações e começou realmente numa de brincadeira, numa conversa de serão», acrescenta.
Já Regina Simões, presidente da Junta de Freguesia do Manigoto, revela que esta é uma dinâmica que, para além de «trazer mais presença nos mês de maio», recupera também tradições que se perderam. «Tentámos trazê-las novamente. Também nos dá gozo, a gente ri-se, a população também se diverte. No ano passado algumas pessoas não acharam piada, achavam que era Carnaval ou que era bruxedo», adianta. «Este ano já ajudaram mais um bocadinho e, pelo menos, já não criticaram, o que já ajuda bastante», considera Lurdes Rocha.
Espalhados por locais marcantes do Manigoto são cerca de 20 as personagens que dão mais dinâmica à aldeia com cerca de 150 habitantes (dados dos Censos 2021). «Aquela é uma prostituta da estrada em trabalho de parto», aponta Maria Gonçalves à medida que se desce em direção à Casa do Povo, onde «o Sidério parou para beber um copo e agora está à espera do autocarro para seguir viagem». Este ano a população conseguiu fazer seis bonecos novos e «também tentámos mudar alguns de sítio para não ser sempre igual e a dinâmica ser outra», acrescenta Regina Simões.
As personagens finais são idealizadas consoante as roupas disponíveis. Já o seu enchimento é feito à base de feno e paus. «Lá usamos uma cruzeta ou outra para fazer os ombros e tecido para as cabeças. E tentamos fazer com nomes antigos para as pessoas não pensarem que estamos a caracterizar alguém e possam sentir-se ofendidas», explica Maria Gonçalves. «São nomes mais pitorescos, como, por exemplo, Ambrósio, Clementina, Saúl, Cremilde», exemplifica a presidente da junta. As três amigas revelam ainda que, por vezes, acontecem situações engraçadas, como assustarem-se elas próprias com os bonecos. «Durante o ano ficam guardados numa sala da Junta e um dia entrei lá e nunca mais me lembrei dos bonecos. Quando abri a porta comecei a gritar, apesar de saber que eram os bonecos, tal foi o susto», ri-se Regina Simões.
Esta é uma das muitas iniciativas que as promotoras querem manter para trazer alguma dinâmica ao Manigoto e, apesar de os “maios” estarem expostos durante este mês, já estão a pensar em repetir a atividade em agosto «para os emigrantes os poderem ver», afirma a autarca reeleita em 2021.

“Maios” devolvem «alguma vida» a locais desativados da Atalaia

Na Atalaia, outra aldeia do concelho de Pinhel, esta é uma tradição que regressou há dois anos. E começou por uma ideia de Isabel Neves, mas por motivos de saúde foi Estela Monteiro que falou com O INTERIOR e explicou a história dos “maios” da Atalaia.
«O grande objetivo é dar a conhecer a nossa aldeia, alegrar as ruas e as gentes da nossa terra porque, infelizmente, há cada vez menos pessoas e as nossas aldeias estão a ficar cada vez mais desertificadas. Assim, durante o mês de maio a população “aumenta”», ironiza.
Os bonecos que antigamente eram colocados nas hortas, a fazer de espantalho para afugentar os pássaros, hoje são usados para devolver alguma vida a locais da aldeia que já estão desativados há algum tempo. É o caso da escola, onde «metemos a professora e os alunos, há lá também uma parte onde antigamente ferravam os burros e foi colocado um senhor com um burro», exemplifica Estela Monteiro. Apesar de não haver nomes fixos para os cerca de 60 “maios” já espalhados pela Atalaia, inevitavelmente, os próprios habitantes já os “batizaram” associando os bonecos a pessoas que já por lá passaram, nomeadamente «umas velhotas que dizemos que são fulanas e lá mais para cima estão dois que são os “franceses” sicranos».
Quanto ao “feedback” que têm recebido ano após ano é «bastante positivo». «As pessoas acham engraçado e ainda noutro dia o motorista dos autocarros me disse que a aldeia estava muito bonita, com bonecos tão engraçados», sublinha a natural da Atalaia. Estela Monteiro aproveita a oportunidade para agradecer a todos os intervenientes sem dizer nomes, «porque toda a gente ajuda à sua maneira e com a boa vontade de todos tudo isto é possível. Se possível, todos os anos pretendemos aumentar um bocadinho os “maios”, pois são uma tradição dos nossos antepassados para assinalar o final do Inverno e a chegada da Primavera, pedindo proteção e fertilidade nas terras, etc.», destaca. Na Atalaia os bonecos ficarão em exposição durante o mês de maio e junho.

Carina Fernandes

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Efigénia Marques

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