A filosofia “Woke”, a mesma que ofereceu a presidência a Donald Trump, tem como origem a expressão “wake up”, com o significado de acordar. Está agora em crise, não só nos seus exageros, mas até na sua vertente mais inofensiva. Tudo o que tem a ver com identidade de género, princípios de inclusão ou equidade para que todos tenham as mesmas oportunidades será apagado dos registos da administração norte-americana. Lá se vão a fraternidade e a igualdade defendidas pela Revolução Francesa…
Acordámos assim para isto. Mas vamos acordar para muito mais. Sabíamos desde 2016, até pelo entusiástico apoio que ele deu ao Brexit, e por declarações muito claras nesse sentido, que Trump não gosta da União Europeia e que preferia que esta não existisse. Não gosta também da NATO e ameaça a cada oportunidade a saída dos Estados Unidos da organização. Vai acabar por fazê-lo e obrigar os restantes membros a tratarem de si, como aliás já deviam ter feito há muito.
É evidente que Trump não chegou sozinho a isto, com a sua cabeça de passarinho volúvel. Por detrás tem o Projeto 2025 e a agenda da extrema-direita global. JD Vance preferiu na passada semana reunir com a AfD a encontrar-se com o chanceler alemão e quando falou em público foi para acusar a Europa de não respeitar o direito à liberdade de expressão, querendo com isso dizer que a União Europeia tinha de aceitar as mentiras propaladas nas redes sociais pela extrema-direita e admitir esta à mesa, acabando com as “cercas sanitárias” que a têm excluído do poder. Nos EUA já chegou ao poder e passou-se, como aliás também por cá, dos factos alternativos para as perceções sobre factos e para as mentiras mais descaradas – lá protegidas como manifestações da liberdade de expressão e cá também, a obedecermos a JD Vance. Acabarão por cá os polígrafos e a verificação de factos, como acabou no Facebook.
Há algo que nos traz esperança e é ao mesmo tempo assustador. Em novembro de 2027 vai haver eleições nos EUA para o Senado e para a Câmara dos Representantes. Entretanto, a verificarem-se os prognósticos de muitos especialistas sobre o resultado das medidas de Trump, vai haver por lá inflação e despedimentos. O preço dos ovos não desce e não vai descer por decreto e as tarifas aos bens importados vão aumentar-lhes o preço. É natural por isso que o eleitorado castigue o Partido Republicano nessas eleições, e Trump por tabela, emasculando-o para o resto do mandato.
Mesmo assim, ainda pode fazer muito mal nestes dois anos e vai de certeza acelerar a concretização do seu plano. Vai entregar a Ucrânia a Putin e trair a Aliança Atlântica, aumentar a pressão sobre o Canadá, a Dinamarca, o México e o Panamá, dar luz verde à extrema-direita israelita para se enterrar a possibilidade de um estado palestiniano. Vai possivelmente atacar o Irão, como ameaçou, e subir o tom no conflito, por enquanto apenas económico, com a China. As suas decisões tarifárias vão trazer inflação a todos e prometem lançar o mundo numa crise económica. É de facto tempo de acordar, mas não para a agenda “Woke”.


