Abate Folia

Escrito por Pedro Narciso

Pode até haver muitas greves climáticas, ou rios de lágrimas pelos fogos da Amazónia e da Austrália, que na Guarda a tradição ainda é o que era. Na hora de requalificar, os abates indiscriminados de árvores não tardam em chegar. Uma mais que longa metragem, com o mesmo realizador, atores principais e secundários que vão mudando, mas onde o argumento de “Massacre na Guarda” jamais pode ambicionar o Óscar. Já como capital europeia da negação das alterações climáticas em altitude estamos bem lançados.

A documentação acerca da requalificação da Av. Afonso Costa, Av. Alexandre Herculano e Rua Soeiro Viegas é clara. A “Cut Run” avança com 10.000 euros para o corte de 50 árvores. Um outro presidente de Câmara justificaria o corte dizendo que se tratavam de 50 num universo de centenas e que replantaria milhares, ignorando a irreversibilidade do corte, os serviços ambientais e de conforto proporcionados pelas mesmas e de, na melhor das hipóteses, a replantação só dar frutos dentro de décadas. Qual é a lógica de plantar árvores, gastando tempo e dinheiro, para que, quando atingem o auge do que podem proporcionar, se cortem rapidamente?

A dendrofobia municipal é tal que me espanta que não seja uma árvore a tomar o papel do Galo no desfile do Julgamento e Enterro do cedro ou da tília. Teria todos os ingredientes para ser um sucesso. Da porta de qualquer tasca carnavalesca teríamos os melhores motivos para continuar a amputar e mutilar o nosso património arbóreo. “Fazem Lixo!” “São um perigo porque podem cair!” “Tiram-me o sol!” “Sujam os carros!” E lá seguia o corso, ironicamente a fazer o seu ato de contrição ambiental pela reciclagem, enquanto, sem qualquer tempo para um julgamento justo, eram queimadas junto com quem as defende. Seria uma catarse de tal ordem que até a dívida municipal à Águas de Portugal apareceria paga e o programa Guarda-me seria atualizado!

Não existe confirmação oficial do número de árvores a abater, quais serão ou porque motivo, apesar do muito tempo decorrido desde o primeiro anúncio desta intervenção. Aquilo que é certo é que, mais uma vez, a opinião dos cidadãos vale zero. Os pareceres técnicos que demonstram a necessidade dos abates não aparecem e a opção é meramente política. Rapidez que houve na retirada dos cartazes de “Socorro”, que alertavam a população para esta intervenção. Conhecendo o ciclo do papel na cidade, com toda a certeza estarão numa trituradora da ULS.

Podemos continuar a mascarar o problema, mas a cidade e o concelho necessitam de regulamentar e valorizar o nosso património arbóreo. Não podemos estar reféns de executores que reagem e raramente antecipam os problemas. Um trabalho de inventariação, plantação, manutenção e abates, mas baseado na ciência e nas melhores práticas. Só balizando todas estas questões poderemos proteger pessoas, bens e árvores, minimizando riscos, potenciando o investimento, deixando de andar a reboque dos pedidos e da falta de sensibilidade para o tema por quem tantas vezes decide.

A continuar tudo na mesma, como dizem os nossos amigos cubanos convidados para a FIT deste ano, seguiremos de poda em poda “Hasta El Abate, Siempre!”.

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Pedro Narciso

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