A direita e o racismo

Escrito por António Ferreira

O ponto de vista de alguma direita sobre a morte do negro George Floyd às mãos de um polícia branco assenta na seguinte narrativa básica: não se trata da morte de um negro, mas sim de um homem que acabou de praticar um crime e resistiu à prisão, que tinha sido previamente condenado por crimes graves, que estava sob a influência de drogas e que pode ter morrido por outras causas.

Segundo essa mesma direita, todas as vidas importam, não apenas as dos negros, e têm razão até aqui. Onde não têm razão é quererem com isso retirar legitimidade ao movimento “Black Lives Matter”, que nasceu da constatação de que a violência policial sobre os negros se traduzia num número anormal de mortes e de que algo teria de mudar para acabar com isso. Por muito que se queira ignorar a questão racial, a verdade é que não há, ou não são conhecidas, imagens de polícias a estrangular brancos até à morte.

Pode ser verdade que a violência policial é um problema, e é-o em muitos países, e em relação a pessoas de todas as raças, mas este movimento existia antes de George Floyd e mantém legitimidade, até porque outro negro foi morto pela polícia americana, desta vez a tiro, poucos dias depois. O passado de George Floyd, que tinha cadastro criminal e um histórico de penas de prisão, tem sido, a pretexto de contextualização, utilizado para de alguma forma justificar a sua morte. É verdade que há logo um ou dois “disclaimers”, protestos de apenas se pretender contextualizar, mas logo vem o refrão: “George Floyd não era nenhum santo!”. Isto já é suficientemente mau, até porque as mesmas pessoas não se preocupam em vasculhar da mesma forma o passado do polícia que o matou, e se não é para justificar aquela morte, então esse argumento não passa de um inútil detrito vazado no discurso. É tão trágica essa morte como se George Floyd fosse merecedor do Nobel da Paz e quem não entende isto tem noções muito distorcidas sobre o bem e o mal. Sobre o crime que ele teria acabado de cometer, a tentativa de passagem de uma nota falsa de 20 dólares, não descobri qualquer confirmação credível, a não ser a da existência da suspeita, tal como não vi confirmação da resistência à prisão: pode ter tentado passar a nota, ou não, tal como pode, ou não, num momento inicial, ter resistido à prisão, já que nas filmagens não parece estar a resistir. Muito pior é a tentativa, naquela “contextualização”, de tornar ainda mais grave o passado criminal de Floyd. É sabido que esteve preso, pelo menos três vezes, e uma delas por um crime grave. Estava acusado de ter forçado a entrada em casa de uma mulher para a roubar, ele e mais quatro cúmplices, e de lhe ter apontado uma arma de fogo à barriga. O “New York Times”, sobre este assunto, limita-se a dizer que Floyd cumpriu quatro anos de prisão por se declarar culpado do crimes de roubo agravado com uso de arma de fogo, e bem: não houve julgamento, não foi exercido contraditório e, como permitido pela lei americana e pelo seu sistema do “plea bargain”, Floyd deu-se como culpado dos crimes, não da prática dos factos, e foi preso sem julgamento a troco de uma pena menos pesada. Assim, apenas podemos concluir que, se se deu culpado do crime é porque, pelo menos, achou que iria ser condenado pela sua prática.

Mais grave é a introdução no discurso de outro fator: a mulher assaltada estaria grávida. Este elemento não consta do processo crime e não é referido por nenhum jornal de referência, tendo sido introduzido na tal narrativa da direita sobre o assunto apenas, aparentemente, para tornar mais grave o passado criminal de George Floyd e menos grave a atuação do polícia que o matou. “Era um perigoso bandido e, para cúmulo, ameaçou com uma pistola, apontada ao seu ventre, uma mulher grávida!”. A conclusão só pode ser a que retiraria qualquer um dos que este fim de semana aplaudiram Trump em Tulsa, no Oklahoma: “É melhor ele estar morto” ou “o polícia que o matou, Derek Chauvin, é um herói”. Já as mentiras difundidas sobre a causa da morte, por abuso de metanfetaminas que teria agravado uma doença cardiovascular pré-existente, não passam de um insulto a todos os que viram as filmagens dos momentos que antecederam a morte de Floyd. Tanto assim que o relatório final da autópsia é muito claro sobre a causa da morte: paragem cardiorrespiratória por compressão do pescoço, sem qualquer menção relevante a drogas no sangue.

Por tudo isto, continua a ser pertinente a pergunta “Há ou não um problema de violência policial com motivações racistas nos Estados Unidos?”. A direita, pelo menos alguma direita, e pelo menos a que estaria do lado vencido na guerra civil americana ou no combate dos anos 60 pelos direitos civis, parece achar que esta pergunta nem deve ser feita.

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António Ferreira

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