O Instituto de Ciências Sociais revelou que um terço dos portugueses nunca usou preservativo. O número choca-me. Essa gente deve ter o teclado do computador num estado miserável. Mais de metade dos entrevistados para este trabalho nunca fez nenhum teste para o HIV, mas muitos também não fizeram exames de 9º ano. Preocupante é o facto de dois quintos acreditarem que o milho impede a contracção do vírus da SIDA. Com o preço dos cereais a subir ao ritmo das últimas semanas a situação pode tornar-se insustentável. E mais, com o custo crescente do milho qualquer dia não se pode ir nem ao cinema comer pipocas.
Satisfeito com os resultados deverá estar o Núncio Apostólico, ao verificar que os homens que vão à missa mais de uma vez por semana são aqueles que mais respeitam as normas da sua igreja e não usam o preservativo em nenhuma circunstância. Admiro a integridade moral de quem segue as normas éticas da religião e não usa a protecção infame nem quando vai ao bordel. No entanto, devo confessar que este resultado me surpreendeu. Não fazia ideia que havia homens que iam à missa quase todos os dias.
O mesmo estudo mostra-nos que uma grande maioria dos portugueses considera as relações homossexuais um acto errado, numa atitude semelhante à que temos com os graffiti. Se der na televisão é arte, se for em nossa casa é uma porcaria. Nesse estudo apenas cerca de 3% da população assume não ser heterossexual e os que assumiram perguntaram se podiam ser capa da Única. Um dado curioso a registar é o que assinala todos os homens heterossexuais terem confessado o desejo de se envolverem em relações sexuais com duas mulheres em simultâneo, ou seja, de serem bissexuais pelo menos uma vez na vida.
Outra conclusão retirada da investigação é que a diversidade de práticas sexuais é maior entre os mais novos. As causas para este facto são a destreza tecnológica (para os adultos é mais difícil mover o rato com a mão inábil) e o desconhecimento (têm de experimentar de várias maneiras até descobrir como é). A prática de sexo oral é apenas um exemplo (e provavelmente o exemplo mais apreciado) da diferença entre gerações. Enquanto dois terços das raparigas já praticaram sexo oral, três quartos das mulheres mais velhas nunca o fizeram, principalmente por não saberem o que fazer à placa dentária durante esses minutos. Também as mulheres que frequentam a igreja se mostram muito mais reticentes perante a sexualidade oral, uma vez que o privilégio da transubstanciação é exclusivo do pão e do vinho. (Não confundir sexualidade oral com oralidade sexual, sendo esta, de longe, a mais praticada pelo género masculino. A oralidade sexual consta simplesmente em falar de sexo com outras pessoas sem que existam contactos carnais. De preferência deve usar-se um tom gabarolas, inventar factos ou, para almas mais singelas, copiar cenas dos filmes para adultos.)
O estudo incide também sobre a infidelidade, prática admitida por 12% dos casados há mais de cinco anos. Estes números mostram que em Portugal existem ainda 88% de pessoas casadas que são incapazes de dizer a verdade em inquéritos científicos. O grupo de investigadores conclui assim que o sexo é uma função monótona crescente. Embora aparente um decréscimo temporal, a verdade é que quando X cresce, a função tende a aumentar.
Por curiosidade, devo acrescentar que também eu fui inquirido para este vasto estudo sobre a sexualidade dos portugueses. Uma voz simpática ligou-me e perguntou-me se eu estava disposto a falar sobre a minha vida sexual. Respondi que sim e sem demoras enviei para o e-mail da equipa de investigação a lista completa das hiperligações na pasta “os meus favoritos”.
Por: Nuno Amaral Jerónimo



