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Será o amor um caso genético?

Uma insólita história de quatro histórias de amor. Em Carpinteiro (Casal de Cinza), quatro irmãos casaram com quatro irmãs

É uma história simples, mas difícil de contar – que isto do amor nunca é linear. Em Carpinteiro (Casal de Cinza), quatro irmãos casaram com quatro irmãs. As duas famílias – Tomé e Antunes – viveram sempre praticamente porta com porta. E a vizinhança acabaria por render quatro casamentos bem sucedidos.

Há 28 anos, a 12 de Abril de 1980, Mário Antunes e Maria do Rosário Tomé deram o “pontapé de saída” na “onda” de matrimónios que ainda estaria para vir. Por essa altura, Ismael Tomé e Augusta Antunes também já “namoriscavam”. «E até dava jeito que fosse assim. Se fôssemos os quatro era mais fácil ter autorização para sair», recorda Maria do Rosário. Na verdade, a primeira noiva a casar até confessa que nunca “ligou” muito ao marido. «Foi mais quando ele veio da tropa», lembra. «Ele escrevia-se com o meu irmão Ismael e eu arrumava-lhe o quarto. Muitas vezes via lá os aerogramas e achava piada», refere. Quando o futuro marido regressou à aldeia, lá começou o namorico. Mas eram outros tempos: «Eu ia buscar comida para as vacas ou carregar carros de lenha e ele ia ter comigo e até me ajudava. Só que, no regresso, combinávamos quem entrava primeiro na povoação». Um namorado exemplar, portanto. E passados 28 anos de casamento – agora vivido em Lisboa –, Maria do Rosário garante não estar arrependida de ter dado o nó. «Somos um casalinho único, toda a gente comenta que não passamos um sem o outro», conta envaidecida.

Para a segunda história de amor desfolham-se os álbuns de fotografias e pára-se a 15 de Agosto de 1981, quando Ismael Tomé e Augusta Antunes trocaram alianças. «Isto é assim. Foi tudo uma maneira de não andarmos a perder tempo à procura», brinca o marido. E acrescenta, divertido: «Fomos assistindo aos casamentos uns dos outros e pronto… Tudo teve o seu início. Mas olhe que eu foi amor à primeira vista», faz questão de sublinhar. No entanto, Augusta Antunes tem outra versão. «Eu e o meu marido não nos dávamos nada bem. Ele andava a namorar com uma rapariga muito minha amiga. Só que zangavam-se constantemente e vinham dar-me queixas, pelo que eu tinha que fazer de intermediária para eles fazerem as pazes. Até que um dia se zangaram de vez. Ainda andei com uma troca de cartas, a ver se voltavam a namorar, mas quem acabou juntos fomos nós», ri-se. O marido apressa-se a acrescentar, em jeito de brincadeira: «Não era bem namorar, digamos que tivemos umas certas conversas os dois».

Vira-se mais uma página do álbum de fotografias da família e chega-se ao dia 16 de Janeiro de 1988, quando trocaram votos e juras de amor Jorge Tomé e Albertina Antunes. «A Tina ia buscar a Magda [filha de Ismael e Augusta] ao infantário e, às vezes, ia com o Jorge, porque não tinha carro», recorda-se alguém. «Eu nem era amiga dele», conta Albertina, admitindo que «a convivência entre famílias» deu uma “ajudinha” à aproximação entre os dois. «O Jorge, ainda eu era garoto, confidenciava comigo e já me pedia a benção», confessa António Antunes, assumindo-se, aliás, como «um intermediário dos dois», já na altura.

Sobraram Adelaide Tomé e António Antunes, os últimos a casar, a 16 de Julho de 1994. «Só me lembro de que estava frio», garante o último noivo, que até chegou a fazer apostas em como não casava na família. Aposta perdida, está bem de ver. «O último casamento de todos foi contra a minha vontade», brinca, justificando: «É que bem vistas as coisas, assim a família nunca aumentava». Mas o que é certo é que já lá vão quase 18 anos.

«Olhe que esta é que é a minha parceira, não ma troque»

Garantem que não foi propositado e que «simplesmente aconteceu». No entanto, as histórias dos oito irmãos acabam por se cruzar – foram servindo de pretexto aos enlaces uns dos outros. «Para nós, é uma coisa normal, nem pensamos nisto. Só quem está de fora é que acha piada», referem. As bodas foram todas feitas em casa e o entusiasmo das duas famílias – que agora são apenas uma – é de tal ordem que fizeram questão de servir nos casamentos uns dos outros. E as festas também não têm faltado na vida desta família. Aos casamentos seguiram-se os baptizados e depois os afilhados, na Páscoa. «Só que é aborrecido, porque os convidados são sempre os mesmos», brinca Ismael Tomé. Ironia à parte, Magda, a filha, revela que já chegaram a conclusões «engraçadas» ao fazer a árvore da família. «A minha mãe é cunhada dos irmãos e nós, os filhos, somos primos duas vezes», explica.

Além disso, só existem duas avós. «Não há aquela coisa dos primos dizerem “Eu tenho uma avó do outro lado da família que mora no sítio “tal”», acrescenta. De resto, assumem-se como uma família unida e continuam a morar praticamente na mesma rua, à excepção de Mário e Maria do Rosário, que estão em Lisboa. Já no final da conversa com O INTERIOR, sugere-se uma fotografia de grupo. Mas, para evitar confusões, o bem disposto Ismael Tomé apressa-se a dizer: «Olhe que esta é que é a minha parceira, não ma troque». Dá então o braço à esposa para mais uma fotografia para o álbum da grande família dos Tomé e Antunes. Ou vice-versa.

Rosa Ramos

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