Arquivo

Regressar ao centro da cidade

Editorial

Na Guarda, no início do século, deram-se os primeiros passos de requalificação urbana sinalizando os pontos nevrálgicos de intervenção. Mas pouco se fez. O Jornal O INTERIOR (convém recordar) procurou então, como ninguém, sensibilizar a autarquia e os diferentes poderes públicos para a necessidade de reorganizar o centro urbano, qualificando-o e dando-lhe uma nova vitalidade. Com a colaboração de um grupo de jovens arquitetos, a convite do jornal (António Saraiva, Cláudia Quelhas, João Cláudio Madalena, Joaquim Carreira, Salette Marques, Fernando Lopes, …), num “especial” sobre a Guarda, nos seus 801 anos (novembro de 2000), sugeriram-se várias intervenções e soluções urbanísticas que, se tivessem sido então consideradas a Guarda de hoje seria, porventura, uma cidade diferente e mais agradável para viver – ou, pelo menos, seria mais aprazível e acolhedora no centro.

Entre outras, sugeriu-se então a pedonalização da Rua do Comércio (que tinha uma via com trânsito automóvel) com a instalação cobertura – Mauricio Vieira rabiscou aquilo que poderia ter sido uma excelente opção para tornar a rua num corredor de tranquilidade e vida comercial. A ideia da cobertura morreu ali, pois na Assembleia Municipal muitos enxovalharam a sugestão, mas o caminho para a pedonalização estava traçado, mas tardaria – com o advento do programa POLIS, parecia que a luz chegara finalmente à Guarda; José Sócrates, à época ministro do Ambiente e do Polis, calcorreou então as ruas do centro histórico e, enquanto Maria do Carmo lhe falava de uma putativa candidatura da cidadela a Património Mundial, o hoje detido ex-primeiro-ministro via ali um túnel que ligaria a rua 31 de Janeiro à Misericórdia, com estacionamento subterrâneo na Praça Velha e pedonalização à superfície; o arrojo da ideia não deixou ninguém indiferente e, durante meses, o assunto dominou discussões e estudos. Nada se fez. No verão de 2002, o jornal O INTERIOR (uma vez mais, por estranho que pareça, convém recordar…) organizou (com o Aquilo) a “I Festa do Livro” e ocupou a Rua do Comércio com livros, esculturas (de Maria Lino e de Pedro Figueiredo), com xadrez, com música, com literatura e teatro… durante 10 dias, a feira do livro cortou a Rua do Comércio aos carros, por entre buzinões e alguns protestos, os guardenses foram-se habituando e, assim, e na sequência da” I Festa do Livro”, a rua passou a ser fechada aos carros. Só mais tarde o pavimento seria requalificado. A “Festa do Livro” regressaria no verão seguinte à Rua do Comércio e em 2004 ocupou a Praça Velha, com uma tenda de circo “gigante” para livros, música, teatro e animação, então, ainda com estacionamento anárquico de carros por todo o lado. Depois, todos se lembram… gastaram-se milhões a fazer uns socalcos de granito que mataram a Praça. A Rua do Comércio sucumbiu em pouco tempo. A cidade ficou de facto partida ao meio. E os mais puristas passaram a reclamar nos jornais cada vez que um carro estaciona numa praça deserta… Se ontem a ideia bestial era pedonalizar o centro da Guarda, hoje, honestamente, devemos reconhecer que pelas condições morfológicas, climatéricas ou culturais, as pessoas só irão regressar à Praça Velha e à Rua do Comércio se puderem ir de carro… É estranho, é absurdo, mas é importante que a Câmara reveja a proibição de estacionar na Praça Velha e repense a lógica da pedonalização na Rua do Comércio. Parece que é dar um passo atrás, mas pode ser o primeiro passo para a renovação urbana com pessoas e para as pessoas.

Luis Baptista-Martins

Comentários dos nossos leitores
albino cardoso alcard8@gmail.com
Comentário:
Muito bem “com pessoas e para as pessoas”!
 

Sobre o autor

Leave a Reply