Tenho um sonho recorrente. Estou numa praia com a minha família e de repente começa tudo aos gritos, a fugir, eu e o meu marido cada um a pegar em cada uma das filhas e a corrermos enquanto uma onda gigante se forma no mar. Acordo sempre antes de sermos atingidos pela tal onda, mas vivo intensamente aqueles momentos de pânico e é uma sensação horrível até de descrever.
Isto a propósito do sismo precedido de tsunami no Japão. Quando vi as imagens, nem queria acreditar nos milhares de pessoas que viveram o horror do meu sonho. Os carros, as casas, os barcos, estradas, pontes… tudo parecia de papel.
Por mais que não queira, quando vejo estas catástrofes naturais, a terra enfurecida, o mar em turbilhão, e depois o rastro de destruição, o medo, as mortes, lembro-me sempre das profecias bíblicas do Apocalipse.
A minha filha Mafalda parece ler-me os pensamentos:
“Mãe, o Jesus está zangado?”
“Parece que sim, Mafalda”.
“Porque aquelas pessoas portaram-se mal?”
“Não sei bem, filha”.
“Não é nada disso Mafalda, não percebes mesmo nada, são coisas que acontecem debaixo do mar e depois formam-se ondas gigantes” – diz a Joana, com um espírito mais científico e uma sabedoria ganha ao longo dos seus 8 anos!
“Pois, porque o Jesus consegue estar em todos os lados e até consegue ir ao fundo do mar, tu é que não percebes nada!” – resmunga a mais pequena, que gosta sempre de ter a última palavra. “Por isso é que temos de rezar sempre ao Anjo da Guarda, não é mãe?”
Às vezes questiono-me como é que as minhas filhas filtram as notícias que vêm e ouvem do mundo real nos seus pequenos mundos onde a realidade e a ficção ainda são uma só.
Eu fico assustada. E se, por um lado, penso que a natureza mostra aos homens que a sua arrogância, ganância e sede de poder, pode evaporar-se em segundos, por outro lado, é nestes momentos que é sacudida a minha esperança num mundo melhor.
Por isso, o melhor mesmo é fazer como diz a Mafalda: “Anjo da Guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia!”
Por: Carla Freire