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O PS e a Guarda

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O fim de ciclo estava anunciado e a derrota veio de muitas controvérsias, muitas dificuldades de audição e da não desconstrução do paradigma anterior. A festa eleitoral manteve o discurso de promessas e baseou-se em ausência de legitimidade estrutural. Ouvi o debate na Antena 1 e fiquei perplexo com a frase: “vamos criar emprego”, como se isso se fizesse repicando árvores, construindo mais obra pública, pedindo chuva de soluções.

A Guarda está num momento dramático que não é dependente de ninguém em particular, nem de nenhuma instituição específica. A saída das fábricas deve-se à ausência de encomendas no sector automóvel e à competição da globalização com a escravatura de mão-de-obra por essa Ásia fora. O exemplo dos sapatos portugueses é fulcral. Não competimos no mesmo sector (sapato asiático a três euros e italiano acima de 35, em média) pelo que nós apostamos em design e qualidade. Os sapatos vendem e vão para todo o lado. A saída das fábricas carregou desemprego e este ressentiu-se nas lojas, na construção e assim produziu o efeito hecatombe do dominó. Não há empregados, não há gastadores! A Guarda tem imensos problemas de raiz que se devem a impunidade, a falta de senso, a ausência de estruturação, mas também a desencontros com a população. Criaram-se obras públicas que não conduziram a utilizadores e portanto algumas definham na sua existência, manutenção e falta de clientes. O paradigma do Hotel Turismo é assustador. Naquele lugar e com aquele aspeto seria uma unidade de charme, mas agora é um apagão. Deixar construir novas unidades em vez de sustentar a reabertura desta é um erro de estruturação. O público deve intervir nalgumas estratégias privadas e deve deixar-se conduzir por algumas auscultações do mercado. O IPG concorre para a segunda maior fatalidade. Deviam ter sido criadas condições únicas para cursos diferenciados e melhores. Mais exigência e mais qualidade aportam melhores clientes. Agora temos cursos vazios e risco de encerramento. A Guarda colapsou com a Addeco. A Guarda crachou no parque industrial, a Guarda sucumbiu no projeto do mercado, a leviandade do edifício do novo hospital está a ver-se. Olhem o prédio onde esteve o Montepio, no centro da Guarda, ali vizinho da pensão Aliança. Olhem como os privados também não resolvem os seus problemas. A Guarda criou um município no paradigma do Estado máximo com funções discutíveis e isso custa muito dinheiro. Hoje, há muita coisa para repensar e só depois de planificar, reduzir, reorganizar se poderá pisar uma estrada de sucesso. Mas há que pensar cada um dos edifícios da Câmara, cada uma das suas funções e verificar de modo cru as suas eficiências para reduzir custos e torná-los mais sustentáveis. Depois há que tornar atrativos os espaços públicos, quer no preço quer nas contrapartidas, para captar empresas num tempo de luta feroz. Rever a relação com a terra e rever sistemas geradores de iniciativa da sociedade, como cooperativas, associações, clubes, catalisando-lhes processos. Para mim, a Guarda é um lugar que bateu no fundo e agora carece remar, remar, remar.

Por: Diogo Cabrita

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