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O 1º Maio antes do 25 de Abril de 1974

”O Interior” recolheu testemunhos de dois antigos trabalhadores que comemoravam o Dia do Trabalhador na clandestinidade

«Era uma comemoração camuflada», acrescenta Francisco Ferreira, que nunca deixou de comemorar o 1º de Maio mesmo correndo o risco da opressão e da perseguição no trabalho, caso fosse apanhado. «Era uma afronta para nós não comemorar o 1º Maio», adianta. Este antigo trabalhador distribuiu panfletos contra o regime, pintou paredes com palavras de ordem e esteve preso em Caxias e no Aljube. Mas mais do que a prisão, foram os acontecimentos na Praça do Município e na Rua Direita aquando da greve de 1945 / 1946 que mais o chocaram. «As cargas policiais, em fúria e violência, lançaram um tiroteio sanguinário sobre a multidão, mutilando muitas pessoas», relembra, numa na altura em que tinha 18 anos. Tinha ido trabalhar para a Fábrica do Baltazar mas mal chegou à entrada viu uma forte carga policial. Francisco Ferreira e mais alguns amigos decidiram então ir para o Pelourinho, arrastando pelo caminho trabalhadores da fábrica “Esteves Fiadeiro” que ficava no caminho. «Quando chegamos ao Pelourinho, era o fim do mundo. Havia tiros pelo ar. Parecia mesmo uma guerra», rememora.

Quanto a António Barrocas era tecelão de profissão e quando faltava ao emprego no 1º de Maio ia «para o campo trabalhar ou passear». Mais tarde, passou a encarregado na fábrica e nunca mais pôde faltar ao emprego no 1º Maio durante o período fascista porque senão «dava muito nas vistas». Mas sempre «protegeu» os colegas de trabalho que nesse dia faltavam. É que nesse dia, iam sempre dois indivíduos da polícia à paisana, «o 23 e os 25» perguntar se faltava alguém ao emprego. «Dizia que estava tudo em ordem e que não faltava ninguém». 30 anos depois do 25 de Abril de 1974, dia que retribuiu a liberdade e direitos ao povo português, estes dois antigos trabalhadores continuam a defender a comemoração do 1º Maio. Uma data que «vale sempre a pena ser comemorada», dizem, principalmente numa altura em que há fome, baixo poder de compra, baixos salários e atentados aos direitos dos trabalhadores. «É um Governo que já não merece estar nas cadeiras do poder», dizem.

Liliana Correia

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