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Investir no interior é rentável

Fio de Prumo

Na era das tabelas Excel, da aritmética do imediatismo e da sacralização do lucro fácil, há a tendência para reduzir tudo a números e considerar os recursos públicos aplicados nas regiões de baixa densidade populacional como dinheiro mal gasto. Esse gasto é rotulado como um peso para o país, uma aplicação sem retorno e a fundo perdido. Um gasto da receita obtida no litoral.

Como a verdadeira ignorância é sempre atrevida, é necessária paciência e espírito franciscano para explicar onde está o erro. Talvez os incêndios do ano passado, pelo seu dramatismo e dimensão trágica, ajudem a ver as coisas como elas são. Não falando agora na perda de vidas humanas – que é o mais importante de tudo – e fixando apenas os aspetos economicistas, Portugal teve uma brutal destruição de valor naquilo que é, não só a sua segunda maior exportação de produtos (a seguir aos combustíveis refinados), mas o seu único recurso natural de volume com aplicação industrial: a floresta.

Ou seja, mesmo vendo as coisas apenas pela ótica do Excel, o investimento na proteção da floresta e da sua fileira que está a começar a ser feito este ano no interior do país é, e será, sempre muito rentável. E, neste caso, a maior parte da rentabilidade até nem ficará no interior, uma vez que a maioria das unidades industriais, do mobiliário às celuloses, se situam no litoral.

Este é só um exemplo, entre muitos, do ponto que é necessário ficar claro. Os recursos aplicados no interior não são gastos (nem esmolas), são investimento. E são investimento que gera produtos competitivos no mercado global, como o papel. São, portanto, investimento rentável.

O problema de despovoamento dos territórios de baixa densidade não é de hoje, nem é recente, como alguns parecem fazer crer. Na verdade, trata-se de um processo de muitas décadas. A questão é que estes territórios há muito não conseguem garantir o mais básico dos direitos aos seus cidadãos: a garantia de igualdade de oportunidades face às demais regiões do país. Foi por não a terem que as pessoas foram saindo. E é por isso que continuam a sair.

Neste momento já é claro para todos, nomeadamente para o Governo, que só haverá solução trazendo gente, isto é: criando condições estruturais para atrair, consistentemente, sucessivas vagas de imigração para o interior. A questão é que, mesmo com esta solução expedita – só com a natalidade nunca mais lá chegávamos… – os problemas, mesmo que tudo corra bem, e relativamente depressa, também irão demorar décadas a resolver.

Por: Acácio Pereira

* Dirigente sindical

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