Arquivo

INQUIETUDE…

Orgulho-me de pertencer ao grupo, penso que grande, dos que também encontram prazer nas pequenas coisas. Apesar de fascinado pela riqueza plástica da Barcelona de Gaudi ou do desfraldar ao vento do museu Guggenheim que Frank Gehr projectou para Bilbau, não consigo ficar insensível perante o rigor, a composição, os materiais e cores, muitas vezes a espontaneidade das construções tradicionais. Não renego a beleza do jardim urbano, mas reconheço muito mais naturalidade à flor do campo, ao gesto de colher o fruto da árvore, ao cheiro do feno cortado, da terra arada ou molhada na trovoada do Verão.

Gosto, imenso, do queijo da serra e confesso ser cada vez mais difícil encontrar queijo que mantenha o paladar a que me habituei. Reconheço mérito no esforço de disciplinar a produção (na higiene, na conservação) e até reconheço que tudo teve a ver mais com a comercialização… O que é certo é que a massificação da produção parece ter conduzido à oferta de muitos queijos iguais a outros…

Apesar de viver na cidade e reconhecer que esta exerce uma enorme atracção sobre as pessoas, não consigo entender um mundo urbano sem o suporte, o equilíbrio, o enquadramento que o mundo rural lhe confere. É muito bom ir ao sol no Algarve, melhor ainda é, apesar de todas as atrocidades urbanísticas que se têm cometido, ele continuar a ser gerador de grandes receitas…ou ainda, imaginemos o que seria se elas não tivessem sido cometidas?

Mas, que dizer das encostas do Douro com escadarias de vinhedos, a terra agricultada, a serra, os rebanhos, as cores os tons, os sabores? Será que estas realidades não são país? Não são suficientemente atractivas e rentáveis, também e fundamentalmente em termos turísticos? E onde estão as pessoas para trabalharem esta outra realidade?

Convido os leitores a fazerem um percurso pelo interior, por essas aldeias onde em tempos houve tanta vida e registem o que encontram…

Preocupa-me, muito, o que está a acontecer, o país que resultará do abandono do mundo rural. Não me refiro ao mundo rural da miséria, mas a um mundo rural por opção de vida e esta ser tão rentável como viver na cidade. Até poderá ser que o presente abandono venha introduzir uma escala diferente. Estou em crer que a rentabilidade será mesmo uma questão de escala, aliás é insustentável continuar com a estrutura da propriedade actual. Mas, e o percurso?

Interrogo-me sobre as políticas que primeiro conduziram à criação da sala de ordenha e a seguir convidam ao abandono, para reduzir quotas. Daqui resultaram, em muitos casos, aldeias museu, limpinhas, totalmente assépticas, onde só falta a vaca (em escultura claro), porque a de carne e osso está no talho.

Inquietam-me as sucessivas leis que, em vez de inverter este cenário, parecem ainda acentuá-lo mais. Inventem-se formas de tributar todo o cidadão, coisa mais que inquestionável numa sociedade democrática, adulta e responsável, mas por favor não nos retirem o prazer e a liberdade de comer coisas diferentes, sem plástico, ainda por cima boas…

Recentemente li, escrito por Inês Pedrosa,…sem o tempo que nos mata não existe vida e viver é estar em crise, tentar resolver problemas. Para resolver problemas é preciso identificá-los, hierarquizá-los, atribuir-lhes um valor e procurar-lhes uma solução.

A sociedade mudou, muito, é verdade, felizmente, na maioria dos aspectos para melhor. Mas este frenesim da mudança não pode acontecer…só por ter de ser. Terá de levar em conta, as pessoas, a realidade, as diferenças, a sustentabilidade, a integração, os deveres e os direitos.

Por: Aires Almeida

Sobre o autor

Leave a Reply