Arquivo

In memoriam

Entrementes

Perdoar-me-ão aqueles que se dignarem a perder um pouco do seu tempo a ler estas linhas mas, hoje, sinto que é de toda a justiça fazê-lo.

Na semana passada deixou-me um dos bons amigos que os caminhos cruzados da vida permitiram que encontrasse. De seu nome Célio Rolinho Pires foi, e continua a sê-lo para mim, um homem bom. Conheci-o como colega, apaixonado pela língua e pela sua terra.

Quando escreveu o seu primeiro livro, “Rosas de Santa Maria” (lembras-te Célio?), deu-me a honra de o apresentar naquela que era a nossa escola e que insistia em continuar a chamar de Ciclo Preparatório.

Aí passámos bons momentos.

Aí aprendi a conhecer o Célio que mandaram para a guerra em Cabo Delgado, lá para os confins de Moçambique quando o que ele mais desejava era a paz. Pois se assim o queriam, ele vingar-se-ia: em vez de disparar as balas de uma metralhadora que insistiram em lhe pôr nas mãos, disparava palavras e nas mãos a arma que se enxergava era uma simples caneta. Assim armado, em tempo de guerra a guerra dele era outra: ensinar jovens adultos, colegas de infortúnio, a ler e escrever. Lembras-te, Célio, daquela lágrima teimosa que, vinda lá dos fundos do tempo, insistia em molhar-te a face quando disto falavas?…

Contigo, Célio, aprendi a ter um outro olhar para as pedras que tanto amavas. Calcorreámos juntos, lembras-te, os caminhos da tua Pega natal até lá para as bandas do Cabeço das Fráguas.

Contigo aprendi, quando apaixonadamente e com aquele brilhozinho nos olhos entrevias lagartos em pedras que a meus olhos eram só isso: pedras. Quando paravas de repente e dizias: «Calma, que agora vamos entrar num antigo povoado pré-romano». Quando apontavas a pedra onde vias um antigo altar sacrificial. Quando identificavas, quase a centímetro, os caminhos que serpenteavam por entre terras que tratavas pelo nome próprio. Ou quando, esfalfados e sequiosos, nos sentávamos nos baixos da tua casa e beberricávamos um daquele tinto que as tuas mãos, sábias e experientes, tiravam da vinha ali logo ao lado tornando-o a nossos olhos um néctar dos deuses.

Contigo identifiquei de nome e local aquelas pedras sagradas a que o povo, crente e religioso até ao tutano, chama vulgarmente de alminhas e perante as quais te descobrias tirando a tua inseparável boina.

Aprendi tudo isto e o muito que aqui não cabe. E aprendi, além do mais, que a vida se faz vivendo. Intensamente, apaixonadamente. Como a tua que agora vives num outro universo onde haverá por certo mais pedras para te deliciarem e um cantinho de terra de Panchurras para te aninhares.

Por mim, caro amigo, por cada pedra que vir com rosto estranho, nela verei também a tua imagem e os ouvidos espevitar-se-ão para ouvir a explicação que, estou certo, não tardará.

Célio, caro amigo, podes estar certo que, para mim e muitos mais, não nos deixaste. Apenas disseste até logo. Pois então, Célio, até sempre, até um dia. Ah, e guarda-me uns goles daquele tinto que por aí continuarás a fazer!…

Por: Norberto Gonçalves

Sobre o autor

Leave a Reply