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Comerciantes da Praça Velha sentem-se «inseguros»

Instalações do ex-Centro de Atendimento a Toxicodepentes (CAT) está a transformar local emblemático da Guarda em «ponto de consumo e venda regular» de droga, denunciam

«Tem vindo a piorar a olhos vistos, chegam a juntar-se aqui aos 20 e 30». Os comerciantes da Praça Velha, na Guarda, dizem sentir-se inseguros com a presença «constante» dos utentes do ex-Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT). A instituição, que funciona na zona mais emblemática da cidade, chama-se agora Centro de Respostas Integradas (CRI), mas só isso mudou.

A funcionar em instalações cedidas, desde 1995, pela extinta Sub-Região de Saúde, é um serviço que a vizinhança bem dispensava. É que para os lojistas do centro histórico a Praça Velha – em particular, a zona dos balcões – transformou-se «num ponto de consumo e venda regular» de droga. «E não são só os utentes do CAT que aqui se juntam e permanecem, quase dia e noite, são também outros consumidores», adianta uma comerciante que não quis ser identificada por medo de represálias. «Preparam a droga em plena luz do dia, mesmo ao lado das lojas», desabafa, acrescentando que a presença dos toxicodependentes gera «um clima de insegurança muito grande». Também tem havido desacatos. «Andam à porrada no meio da rua e são mal-educados com quem passa. Há clientes que se afastam e já não entram, eu noto que as pessoas têm medo», garante outro lojista, que também pediu anonimato.

Um vizinho refere que já partiram os vidros de estabelecimentos «mais do que uma vez», acrescentando que o problema não é o CRI, mas sim a sua localização: «É uma instituição necessária e faz um trabalho importante, só que talvez não esteja na zona adequada», defende. Por exemplo, às quintas-feiras de manhã chega um carro celular com reclusos do Estabelecimento Prisional que estão em tratamento. «Fica aqui estacionado, quase no centro da Praça, e os reclusos desfilam, algemados, pelo meio da rua. É inacreditável», critica a primeira lojista, para quem o Parque da Saúde poderia ser uma localização «mais indicada» para esta instituição. «Há muito espaço e os utentes até se devem sentir melhor, mais à vontade», completa outro comerciante, que também critica a falta de manutenção e vigilância na Praça Luís de Camões. «Temos sido esquecidos em tudo, no estacionamento e na protecção. Já alertámos as autoridades e a Associação Comercial (ACG), mas não tem servido de nada. Não chega passar por aí um polícia ao fim da tarde. Queremos mais vigilância, mais segurança, maior protecção», exige.

Novas instalações prometidas há dois anos

O comissário Quadrado, da PSP da Guarda, admite que as preocupações dos comerciantes «já não são de agora» e recorda que «ainda no Verão passado foi formalizada uma queixa». A situação até motivou uma reunião entre a ACG, a PSP e a Câmara, «onde foram transmitidas essas e outras preocupações», recorda o comandante Luís Viana, confirmando que têm sido relatadas «situações pontuais de actos de vandalismo do património público e dos comerciantes», as últimas das quais aconteceram na semana passada. Por isso, a zona tem tido policiamento permanente. «Está a haver até um descurar do patrulhamento de outras áreas da cidade para reforçar a zona da Sé. A situação é preocupante, mas não alarmante», tranquiliza, dizendo que foram sinalizadas, em 2008, «oito ou nove situações de violência».

Só em 2008, o CRI recebeu cerca de 500 utentes e realizou 8.200 consultas. «É, por isso, natural que haja uma maior movimentação de pessoas com algumas problemáticas associadas na Praça Velha», admite o director da instituição. Ainda assim, Rui Correia alerta para o facto de nem todas as drogas estarem associadas ao crime. «Os indivíduos que consomem drogas nem sempre passam para o mundo do crime», argumenta. Apesar disso, o psicólogo clínico diz compreender as preocupações dos comerciantes. «O CRI estaria melhor se funcionasse noutro sítio e nisso todos concordamos. A melhor localização poderia ser onde estão situados os outros serviços na dependência do Ministério da Saúde», defende. De resto, Rui Correia recorda a promessa feita «pelos responsáveis da Saúde na Guarda», quando se levantou a «forte hipótese» do CRI ocupar as instalações do actual Centro de Saúde aquando da mudança para as novas. «Precisamos de alguma discrição, o que não temos actualmente», admite o director, que espera que «a sensibilidade manifestada há dois anos se mantenha».

Praça Velha continua sem placas

Os turistas que vêm à Guarda sabem que estão na Praça Velha unicamente por causa da Sé, já que a praça há muito que não tem placas toponímicas. O INTERIOR deu pela falta da sinalética em Maio do ano passado. Na altura, Virgílio Bento, vice-presidente da autarquia, mostrou-se surpreendido, mas garantiu que estaria em fase adiantada o estudo de «um novo modelo de placas». O que é certo é que já passou quase um ano e o ponto mais emblemático da Guarda continua sem estar devidamente identificado.

Rosa Ramos

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