Arquivo

Banda larga móvel vai chegar a aldeias sem saneamento

Os habitantes das aldeias do Jarmelo vão ter acesso à era da tecnologia, mas a falta de serviços básicos atira-os para a idade da pedra

Em pleno século XXI ainda há aldeias sem saneamento básico e desengane-se quem julga que isso acontece nos países de terceiro mundo. Aqui mesmo ao lado, na freguesia de São Pedro do Jarmelo, concelho da Guarda, existem algumas localidades nesta situação. Paradoxo dos tempos modernos, está para bem mais próximo o acesso à banda larga móvel nestas localidades.

Pode parecer contraditório, mas é mesmo assim. Esta é uma imposição da Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) às operadoras, contudo não há nenhuma entidade que faça uma imposição do género a nível do saneamento. Alcina Trindade vive na Guarda, mas é na sua casa da Ima que passa a maior parte dos dias. Reconhece que é «importante o acesso à banda larga, mas é mais necessário o acesso ao saneamento». Na sua casa esta lacuna está a ser colmatada com uma fossa que volta e meia «enche e temos que arranjar forma de tirar os resíduos», normalmente recorre uma bomba e posteriormente deposita no campo. Para Alcina Trindade, é «incompreensível» como a situação se arrasta há dezenas de anos. «Temos uma ETAR aqui na Ima que custou milhares de euros, para nada», lamenta.

Pela aldeia, na freguesia de São Pedro do Jarmelo, passam os coletores de águas residuais de quatro aldeias vizinhas, mas quanto à questão de quando as restantes anexas do Jarmelo terão também direito ao saneamento básico, a pergunta fica por responder. Alcina Trindade diz não haver respostas por partes da Câmara: «Talvez porque as aldeias estão a acabar, porque há cada vez menos gente, mas seja como for precisamos de condições», considera a moradora. A O INTERIOR, o vereador que tutela os Serviços​ Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) da Câmara da Guarda explica que no atual plano de ação «o saneamento não é prioridade». O executivo está a dar primazia às aldeias sem água canalizada. «Só depois de garantirmos que todas as aldeias têm abastecimento de água podemos pensar nisso», afirma Sérgio Costa, que descarta qualquer responsabilidade pela falta de serviços nalgumas aldeias do Jarmelo.

«Durante mais de 40 anos houve aldeias sem saneamento básico e sem água canalizada, nós estamos agora a tentar resolver esse problema», sublinha o vereador. Na sua opinião, «é incompreensível» este assunto não ter sido solucionado depois de tantos quadros comunitários e que agora «este processo não tem qualquer financiamento de fundos comunitários e por isso terá de ser gradual». Quando há mais de dois anos o atual executivo tomou posse existiam mais de 30 aldeias sem água no concelho da Guarda, adianta Sérgio Costa. No ano passado Donfins e Urgueira, também aldeias de São Pedro do Jarmelo, passaram a beneficiar de uma rede de distribuição de água que até então no existia. Mas, para espanto dos populares, uma vez que já decorriam obras nas ruas, a intervenção ficou-se apenas por ali e nada foi feito quanto ao saneamento. Sérgio Costa justifica que em causa estão questões financeiras, não só na implementação da rede, mas também «da despesa acrescida que iria trazer para o município, pois o saneamento é contraproducente».

No entanto, consultada a página dos SMAS da Guarda, é possível verificar algumas das intervenções feitas pela empresa, nomeadamente em coletores de águas residuais e saneamento. A banda larga móvel, essencial nos dias de hoje, chega ao interior profundo, no entanto, se a ausência das redes básicas permanecer, é possível que no futuro não haja ninguém para usufruir das novas tecnologias nestas aldeias.

Ana Eugénia Inácio Alcina Trindade tem uma casa na Ima, onde não existe saneamento básico, tal como na Urgueira e Donfins

Sobre o autor

Deixe comentário