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A Paulinha ganhou um “Magic Eye”

Jovem com paralisia cerebral poderá controlar computador apenas com os olhos

A Guarda está à beira de se tornar um distrito ainda mais digital. Primeiro, foi o projecto “Magic Key”, que permite aos utilizadores controlar o rato do computador com os movimentos da cabeça. Agora, Luís Figueiredo, professor do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), tem em fase adiantada a implementação do “Magic Eye”.

Natural do concelho da Guarda, Paula Costa, também conhecida por Paulinha, está institucionalizada na Obra Social Padre José Miguel, no Soito. Tem paralisia cerebral e, dentro de dias, poderá controlar um computador apenas com os olhos, assim deixe a ansiedade que, por vezes, a controla quando recebe boas notícias como esta. Para o docente do IPG, a “chave” e o “olho” mágicos «são coisas completamente diferentes». «As únicas semelhanças são o nome e o facto de eu os ter feito», ironiza. O “Magic Key” foi desenvolvido para tetraplégicos, que não podem usar as mãos mas controlam perfeitamente a cabeça. Contudo, o aparecimento de muitos casos em que esta aplicação não podia ser usada levou à necessidade de desenhar outro produto. Em causa estão dois grupos concretos: as crianças com paralisia cerebral (situação semelhante à da Paulinha) e quem esteja completamente imobilizado, como algumas pessoas que sofram um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Se, por um lado, uns não conseguem dominar a cabeça e outros não a conseguem mover, acontece que, por outro lado, a maior parte de todos estes doentes tem um controlo quase perfeito dos olhos. «Esta aplicação, em vez de usar os movimentos da cabeça, usa a direcção do olhar», concretiza Luís Figueiredo. Além de não dominar os quatro membros, à Paulinha falta também a fala e, de uma forma geral, a comunicação. Com tamanhas lacunas, esta “prenda” «é como despertar para uma nova realidade. Os olhos, com algumas limitações da falta de controlo motor, são o que vai conseguindo dominar, com alguma dificuldade», explica Octávio Martins, terapeuta. Na terceira sessão de testes, a que O INTERIOR assistiu, Paula Costa pôde, por exemplo, divertir-se com jogos especialmente desenhados para esta situação e com um programa de cálculo. «Com estas funcionalidades, ela consegue desenvolver áreas como a escrita ou o raciocínio lógico», relata o técnico.

Neste momento, a Paulinha tem noção das letras, das palavras e do processo de redacção, «mas não sabe escrever com uma ortografia correcta e, com este programa, consegue atingir a escrita», sublinha. Criado por Luís Figueiredo, o software apela a uma maior utilização das capacidades cognitivas dos doentes. Através de uma câmara de vídeo de alta definição, permite que, «a partir do momento em que a pessoa tenha acesso ao computador, consiga controlar o cursor do rato e, virtualmente, possa fazer tudo», como navegar na Internet quase sem limitações, com tudo o que isso significa, destaca o investigador. No mercado já existe outro programa com características idênticas. Contudo, «os preços praticados rondam os 18 mil euros, o que torna impossível que seja instalado em muitas situações». Ao invés, o projecto do docente do IPG vem «democratizar o acesso a estes sistemas». Algo que resulta, desde logo, da «filosofia inerente ao projecto», explica: «Nós não somos uma empresa comercial, somos uma entidade que faz investigação, e todo o dinheiro que recebemos é investido no próprio projecto. Não há distribuição de dividendos», garante.

O mecenas é a Guarda Digital, que suporta «o investimento tecnológico e alguns bolseiros que já passaram pelo projecto», evidencia o docente, que lança um repto: «Quando as pessoas nos contactarem receberão um computador com tudo pronto, sem custos. Lanço aqui um apelo para quem, no distrito da Guarda, necessitar destes sistemas e para quem o “Magic Eye” seja uma mais-valia».

Igor de Sousa Costa

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