Devagar, devagarinho, parado!

Escrito por Fernando Pereira

“O dinamismo empresarial só se consegue com exigência e isso só se pode auferir com a elevação cultural dos cidadãos. Isto é um processo mecanicamente dialético, e só depois de se despir o sectarismo dos que estão no poder, e dos que fazem oposição para estar no poder a fazer exatamente igual é que é possível trabalhar para o bem comum.”

Andei a arrumar uma tralha cá por casa e olhei para uma caixa que estava por cima de um armário intocada há anos, sem qualquer referência ao que teria o seu interior.
Quando a abri, foi como se tivesse reaberto a caixa de Pandora. Tinha por lá um conjunto significativo de artigos dos muitos que fui fazendo ao longo da vida em jornais, rádio e outras publicações por várias andanças. Perderam-se muitos, mas pelos vistos ainda se recuperam alguns.
Entre os que me fui deliciando a recordar, encontrei um conjunto de artigos de um tempo em que colaborei semanalmente na Radio Altitude, onde mantive uma presença regular. À sexta-feira, durante dois anos, lá me esforçava para dizer o que julgava certo, com o cuidado de omitir o muito certo, porque havia muitos que não gostavam.
Tudo isto porquê? Porque há um conjunto de crónicas desse tempo, e estamos a falar dos últimos cinco anos do milénio passado, que podiam ser escritas hoje que a atualidade do tema não se perdia.
Esta é de 18/10/1997, e não vou alterar uma vírgula ao que li ao tempo nos microfones da vetusta Altitude.
«Anda toda a gente muito preocupada com a desertificação do distrito da Guarda, e simultaneamente com o facto de nada vir cá parar. As preocupações aumentam quando alguns “bibelots” daqui são levados para outros lugares.
Não pactuo com este discurso da moda. E porque é que é um discurso de moda? Porque a realidade é que isto se passa há muitas décadas e ninguém se preocupou com isso. Agora, em que a competitividade e o mercado impõem regras, a Guarda e os outros municípios do distrito acordam para uma realidade que com eles convivem há muitos anos a esta parte.
… O distrito da Guarda foi vivendo ao longo de décadas das migalhas das remessas dos emigrantes que de cá saíram na busca de melhores condições de vida para si e para os seus.
O folclore de Agosto, quando vem de férias, era motivo de chalaça e dichotes, quando na realidade é que essa situação era a parte visível de um tumor que corroía o interior abandonado a uma sorte madrasta.
Não será por ter lobbies que a Guarda vai ter mais qualquer coisa importante, é fundamentalmente porque não tem atividade empresarial e dinâmica política que altere o estado atual das coisas.
O poder político da Guarda é de pouco peso, isto é quase uma frase batida, mas só poderia ter algum peso se fosse sustentado por um grande empenhamento das dinâmicas empresariais, intelectuais, culturais ou outras e não poder político que se tem que é um pouco igual à imagem da região: sectário, individualista, com laivos aqui e ali de caciquismo e acima de tudo mais preocupado em rotular pessoas do que discutir que afinal são de todos os que cá moram, e os que querem continuar a viver por aqui com melhores condições.
Veja-se o quadro global da cultura média dos ocupantes de lugares políticos, por eleição ou nomeação no distrito. É demasiado confrangedor para nós sentirmos que não estamos de facto a viver um pesadelo.
O dinamismo empresarial só se consegue com exigência e isso só se pode auferir com a elevação cultural dos cidadãos. Isto é um processo mecanicamente dialético, e só depois de se despir o sectarismo dos que estão no poder, e dos que fazem oposição para estar no poder a fazer exatamente igual é que é possível trabalhar para o bem comum.
É um tema aliciante, mas que não cabe nos minutos desta crónica, nem tão pouco me sinto com capacidade de ser eu a levá-lo às pessoas. Reconheço as minhas insuficiências, mas gostaria que outros as reconhecessem também e não se escondessem atrás dos biombos que os lugares lhes facultam, para lhes dar a autoridade de “engenheiros de almas” rebuscando uma máxima de Estaline.
… Algo está podre no Reino da Dinamarca».
Esclareça-se que a crónica era um pouco mais longa, e a própria verve é de rádio, com pouco cuidado na pontuação, para além de outras construções. Só trouxe aqui o essencial de uma crónica escrita há 27 anos, que bem podia ser de hoje. Prometo que trarei outras e todos verão que o tempo passou, mas as questões, os problemas e o quotidiano das intervenções publicas em nada se alteraram.

Sobre o autor

Fernando Pereira

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