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O primeiro dia do resto da vida de Pinhel

Rohde encerra em definitivo amanhã, mas a grande maioria dos trabalhadores já deixou de laborar a 31 de Março

Encerra amanhã em definitivo a fábrica Rohde de Pinhel, mas a grande maioria dos 372 trabalhadores já deixou de laborar a 31 de Março. Ainda a recompor-se do choque que foi o anúncio do encerramento da principal empregadora do concelho, conhecido há cerca de dois meses, a cidade esforça-se por voltar à normalidade, tendo em conta que cerca de 20 por cento da população activa do concelho ficou sem emprego. À semelhança dos seus antigos colegas, os poucos funcionários que trabalharam nos últimos dias de vida da fábrica olham para o futuro com grande preocupação.

É o caso de Francisco Gomes que garante que é «um bocado complicado» deixar um local onde trabalhou 15 anos: «É metade de uma vida e de um momento para o outro a gente vê-se na rua e sem perspectivas de trabalho», lamenta o mecânico de máquinas de costura, residente em Pinhel, que assegura que «não é fácil passar por uma situação destas». «Nós ouvíamos as notícias de fecho de fábricas, mas pensávamos que nunca nos acontecia a nós, que era sempre aos outros», diz aquele que foi um dos 22 funcionários que tem passado os últimos dias a «desfazer uma coisa que foi feita por nós», já que o mês de Abril serviu essencialmente para «desmantelar e desmanchar tudo», explica. Também Luís Batista olha com preocupação para o futuro porque as perspectivas de trabalho no distrito não são as melhores. «É muito complicado. Antes, uma alternativa muito boa era a construção civil, mas até aí hoje é muito difícil arranjar trabalho», queixa-se. Este mecânico de máquinas de corte e linha de entrada criticou ainda a atitude dos administradores da Rohde por «já saberem que a fábrica ia fechar e não nos terem transmitido mais cedo», frisa. Por outro lado, o trabalhador reconhece que a empresa já pagou tudo o que tinha a pagar «conforme o que está estipulado na lei», tendo agido «correctamente» neste aspecto, afirma. Curiosa é a situação de Maria Rocha que chegou à Rohde de Pinhel em 1993 vinda da fábrica de Santa Maria da Feira, onde a empresa alemã vai continuar a laborar. Apesar de garantir estar «preparada psicologicamente» para o fecho da fábrica, confessa que é «muito triste» deixar de percorrer o caminho que fez quase todos os dias nos últimos 13 anos.

Quem também diz ter ficado «triste» com a notícia do encerramento da Rohde, mais pelas relações que cultivou com os operários do que pelo prejuízo, é Luís Gama Freire, proprietário do bar “A Fábrica”, localizado mesmo junto à empresa. É que «400 euros não dá para andar a beber whiskys», frisa. Longe vão os tempos, há oito anos, em que «o pessoal consumia whiskys e outras bebidas brancas», indica. Aliás, de há dois ou três anos a esta parte, as vendas a nível da garrafeira foram «muito abaixo», e o que mais vendia ultimamente aos trabalhadores eram cafés e águas porque «não havia dinheiro para mais», realça. Deste modo, considera que o impacto do encerramento da Rohde, no seu caso, «não é muito significativo», tendo em conta que o prejuízo se fica por «menos 80 cafés por dia», explica.

Ruas repudia venda do terreno

Américo Paulino, director do Centro de Emprego de Pinhel, assume que o desemprego «aumentou e muito» até porque a juntar aos 372 funcionários que a fábrica tinha a laborar no momento do anúncio do encerramento, nos dois meses anteriores já tinham saído cerca de 100 trabalhadores, mas remete números concretos para mais tarde. De resto, grande parte dos operários que deixaram de laborar a 31 de Março encontram-se a frequentar acções de formação profissional. Por sua vez, António Ruas, presidente da Câmara de Pinhel, frisa que os desenvolvimentos que houve em relação à Rohde foram «praticamente nulos ou nenhuns». Quanto à intenção da administração da Rohde de querer vender o terreno da fábrica, o autarca repudia esta posição. «Pelo menos moralmente deviam ter a obrigação de nos contactar e saber se nós estaríamos na disposição de adquirir as instalações da fábrica e nós diríamos sim ou não. Era o mínimo que deveriam ter feito», reclama. Recorde-se que o terreno onde a Rohde se instalou há quase 16 anos custou à Câmara mais de 500 mil euros em 1990, mas foi vendido, devidamente infraestruturado, à multinacional alemã por 25 cêntimos o metro quadrado, o que deverá ter totalizado uma verba entre os 30 e os 40 mil euros. Em contrapartida, a empresa acordou permanecer no município durante 15 anos, revertendo depois para o seu património. Foi o que aconteceu.

Ricardo Cordeiro

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