Reportagem Sociedade

Economia local continua “confinada”

Escrito por Jornal O Interior

Após dois meses e meio de total paragem a economia ainda não recuperou. Devido à pandemia de Covid-19 – e ao confinamento a que obrigou – os estabelecimentos do centro histórico da Guarda não recuperaram das perdas e continuam com contexto «muito mau».

O cenário vai-se repetindo: na montra anunciam-se as promoções e os descontos. A porta está entreaberta e avisa que há lotação máxima definida dentro do espaço. Entramos e vemos frascos de álcool-gel junto a letreiros que pedem que seja utilizado. O funcionário aproxima-se sorridente, certificando-se que os elásticos da máscara estão bem presos atrás das orelhas. Perguntamos como está o negócio e o sorriso dá lugar a uma resposta que encaram como óbvia: «Está fraco, mesmo muito fraco».

Após o período que já é descrito por economistas como o “Grande Confinamento”, a recuperação da economia local faz-se a ritmo lento. Isso mesmo confirmam os funcionários e proprietários dos estabelecimentos do centro histórico da Guarda que estão pessimistas quanto ao futuro pós-Covid-19. «Estivemos fechados um mês e meio, desde 16 de março até 4 de maio» e o negócio tem estado «muito mau» desde a reabertura, adianta Daniela Araújo, responsável da loja de roupa Rulys. «Comparando com o “antes” [da pandemia], vai ser muito difícil recuperarmos a cem por cento tudo o que conseguimos até à data que fechámos», diz a responsável, que fala numa quebra de «pelo menos 40 por cento» face ao mesmo período do ano passado. «Rezemos para que, em dezembro e no Natal, estejamos todos abertos porque a maior parte do comércio espera por esse mês para recuperar muito do que perde durante o ano», acrescenta a lojista.

Ao virar da esquina da Rua do Comércio há um letreiro vermelho que se destaca. A loja “Império da Moda” tem a porta aberta e ouve-se gente a conversar. É mais um regresso tímido à atividade após «dois meses e meio» de porta fechada. A loja não está vazia, mas em relação ao ano passado «não há comparação», garante Delfina Roque. A proprietária do estabelecimento com 65 anos de história conhece cada cliente pelo nome próprio, mas diz não estar certa de continuar o legado da mãe. «Vamos ver como isto vai evoluir», afirma.

Sendo uma loja mais dedicada a artigos de cerimónia, a comerciante diz sentir os efeitos dos cancelamentos dos eventos, com quebras que atingem os «30 a 40 por cento» face ao mesmo período de 2019. «Eu tenho a minha agenda do ano passado e não a vou ver porque dava em doida, completamente!», exclama Delfina Roque.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), os indicadores de confiança dos consumidores e de sentimento económico na Área Euro (AE) recuperaram de forma mais intensa em junho do que em maio, mas mantem-se em níveis «historicamente baixos». No site do INE é ainda possível ler-se que «comparando com a situação que seria expectável sem pandemia, 66 por cento das empresas assinalaram um impacto negativo no volume de negócios (compara com 68 por cento na quinzena anterior). Essa percentagem aumenta para 87 por cento no alojamento e restauração».

 

Falta de turistas espanhóis reflete-se na faturação dos restaurantes

Para verificar as estatísticas bastou seguir em frente e entrar na Rua Direita, a via ligada à Praça Velha, que agora está vedada ao trânsito. Dentro do restaurante “Solar da Beira” as mesas vazias à hora de almoço não deixam margem para dúvidas. Ivone Costa, proprietária, solta uma gargalhada quando questionada sobre as quebras nas vendas. «Não vou mesmo estar a mentir», diz com um sorriso irónico, «eu estou a faturar… Sei lá… Dez por cento». A falta de turistas espanhóis é a principal causa das perdas e até houve a dias em que não foi servido um único almoço. «Imagine, eu, que em julho do ano passado servia duas salas!», exclama Ivone Costa. No que toca a apoios do Estado, apenas o marido e o filho beneficiaram do regime de “lay-off” simplificado, por serem – os únicos – funcionários da empresa. «Foi muito importante. Claro que foi insuficiente, mas deu jeito, deu muito jeito», admite a cozinheira e sócia gerente do restaurante.

Também a “Casa Inês”, localizada no Largo São João de Deus, beneficiou de apoios. Maria Ester, a proprietária, diz ter contado com a ajuda do Governo «durante o mês e meio que estive fechada. «Deram-me uma média de 400 euros», que, segundo afirma, «nem para a renda deu». A comerciante reabriu portas a 4 de maio, um mês que diz ter sido «muito complicado». «Em junho, com o São João animou um bocadinho, nada que se compare com os outros anos», constata, apontado quebras na ordem dos 40 a 50 por cento. Desde essa altura o nível de clientela tem estado «mais ou menos». «Não posso dizer que o negócio está bom, porque não está. As pessoas têm medo. Se vêm a sala meia composta já não entram, a esplanada igual… Se a gente tivesse funcionários isto já teria fechado», lamenta Maria Ester.

 

Sofia Craveiro

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