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Queijo Serra da Estrela sofre efeitos da pandemia

Escrito por Jornal O Interior

A fileira do queijo está a dar sinais de abrandamento. Os produtores de leite estão preocupados com a redução do preço, enquanto as queijarias não conseguem escoar produção deste ano. Os prejuízos são uma realidade anunciada que se tenta adiar a todo o custo.

A atual situação de pandemia está a causar estragos em vários setores da economia. Na região são muitos os empresários e trabalhadores que estão preocupados com o abrandamento das suas atividades, temendo os prejuízos causados pela falta de procura. É o caso do emblemático queijo Serra da Estrela DOP que está a registar quedas acentuadas nas vendas. O prejuízo é sentido pelos que produzem leite e também por quem faz o queijo. Enquanto os primeiros temem a descida dos preços de venda por litro, os segundos falam num esgotamento das capacidades de armazenamento.

Os dados provisórios da EstrelaCoop, Cooperativa de Produtores de Queijo Serra da Estrela, relativos a 2019, referem 124 produtores de leite certificado e 26 queijarias na região DOP Serra da Estrela. Nesse ano foram produzidos 935 mil litros de leite e 170 toneladas de queijo, volume que arrisca diminuir este ano com a queda da procura devido à paralisação dos mercados pela pandemia da Covid-19. 

Paulo Belo, pastor radicado no Minhocal (Celorico da Beira), produz leite certificado de Denominação de Origem Protegida (DOP) de ovelha bordaleira. Até à data tem conseguido escoar a produção habitual de 70 a 80 litros de leite a cada dois dias, mas não esconde a preocupação com o futuro a curto prazo. «O meu maior medo é que, se deixarem de me levar o leite, não sei como vou pagar as despesas. É Segurança Social, é luz… Os animais têm que comer e não vejo nada [de apoios] para a agricultura. Só oiço falar em fábricas e afins…», critica o também vice-presidente da Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela (ANCOSE).
O receio é partilhado por Ricardo Pimenta, pastor no concelho de Gouveia, onde possui 250 cabeças ovelhas bordaleiras, raça autóctone da Estrela. «Os pastores são pessoas que vivem um bocado no limiar, não são “avantajadas” e isso faz muita diferença numa altura destas», sublinha. Entre as preocupações dos vários produtores ouvidos por O INTERIOR está a queda do valor do leite pago pelas queijarias. Manuel Marques, presidente da ANCOSE, destaca o impacto desta situação para os pastores, que diz serem os mais prejudicados no setor. 

«A vida está muito complicada para os produtores de leite e para o fabrico de queijo DOP porque as queijarias que pagavam o leite a 1,10 [euros por litro] estão agora a pagar a 70 e 80 cêntimos», alerta o dirigente. As fábricas «têm capacidade para armazenar» queijo, que depois vendem no mercado «ao preço normal que já estava a ser vendido», apesar de terem comprado a matéria-prima a um «preço muito, muito reduzido», acusa ainda Manuel Marques. «Certamente não vão distribuir os lucros do queijo que fizeram com uma matéria-prima muito mais barata. É lamentável!», critica o responsável.

Queijarias acumulam stock para não parar de produzir

Para os produtores de leite com queijaria própria, como é o caso de José Aires, o problema não se prende com a utilização do leite, mas antes com a capacidade de armazenamento. O dono da queijaria Quinta da Moita, em Celorico-Gare, fala numa queda de «80 por cento» nas vendas, o que resulta numa grande acumulação de stocks. «Vendia três a quatro caixas de queijo (não DOP) por dia. Nesta última semana vendi apenas dois queijos», lamenta, contando que, em março, o dinheiro obtido nas vendas «não chega nem para pagar um terço das despesas». Confrontado com a falta de espaço para armazenar o queijo produzido, José Aires prevê ter de secar os seus animais para poder reduzir os encargos. «Estamos a cavar um buraco bem fundo», desabafa o produtor.

Já Célia Silva, proprietária da Casa Agrícola dos Arais, em Vide-entre-Vinhas (Celorico da Beira), afirma que a altura mais preocupante nem vai ser «março», mas antes os meses de abril e maio devido às quedas que irão verificar-se na Páscoa, «a segunda melhor altura do ano para os produtores de queijo». «Não sei ao certo as vendas que vou conseguir fazer», refere a produtora, que prevê quebras «à volta dos 9 mil euros por mês».

Além de produzir leite, Célia Silva também compra a outros produtores. «Nós não queríamos deixar de comprar leite, nem parar de produzir queijo», acrescenta, dizendo conhecer casos de queijarias que já o fizeram ou optaram por baixar o preço. Por agora está a congelar os queijos que continua a produzir e a vender o que for possível.

«Estamos a ter prejuízo neste momento»

A queda nas vendas afeta muitas empresas, mesmo as que possuem maiores estruturas de negócio. É o caso dos Queijos Tavares, onde a produção se mantém normalmente, embora com uma quebra de cerca de 40 pro cento no volume de encomendas.

«Estamos a produzir para stock», adianta a O INTERIOR João Pinto, administrador da empresa de Seia, que explica os motivos de comprar leite a um preço inferior. «Estamos a comprar o leite a um preço mais baixo porque estamos a fazer um esforço de recolher todo o leite que nos têm estado a trazer aqui e evitar que se deite leite para o lixo», afirma o responsável, segundo o qual a empresa está agora a aceitar leite de um maior número de produtores. «Devermos estar a abranger mais 10 por cento, ou seja, devíamos ter qualquer coisa como 100 produtores e neste momento temos cerca de 110», revela João Pinto. «Ao contrário de algumas queijarias que estão a recusar recolher leite dos produtores, a nossa opção foi baixarmos o preço e recolhemos mais», acrescenta.
Esta redução do preço foi da ordem dos «20 por cento», de acordo com o administrador, que ressalva que isso não significa uma maximização do lucro da empresa. «O queijo será vendido ao mesmo preço, pois o custo unitário de produção aumentou em pelo menos 20 por cento». Com a acumulação de stocks aumentam também os «custos de armazenamento» e a necessidade «de um esforço promocional maior» para escoar o produto. «Estamos neste momento a ter prejuízo», garante João Pinto.

O responsável refere ainda que a empresa tentou alertar o poder central para a gravidade da situação. «Fomos nós que mandámos cartas ao Ministério da Agricultura, nomeadamente através das autarquias de Seia e Fundão, porque temos consciência do que está a acontecer e o poder político não», alerta o administrador dos Queijos Tavares.

Sofia Craveiro

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