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Fuga de documentos do Facebook revela riscos e efeitos nocivos para as crianças e adolescentes

Pt29
Escrito por Efigénia Marques

O diário The Wall Street Journal revelou diversos documentos internos do Facebook, contendo relatórios que indicavam efeitos negativos da plataforma, incluindo aumento da desinformação, discurso de ódio e riscos para as crianças. Embora estes documentos, entregues ao The Wall Street Journal pela ex-funcionária do Facebook Frances Haugen, não contenham qualquer violação da lei, colocam em causa a ética da empresa ao decidir ignorar que muitas das suas políticas que visavam aumentar a venda de publicidade exacerbavam os efeitos nocivos mencionados.

Na era da digitalização, em que as novas tecnologias, dispositivos e plataformas online tornam-se cada vez mais presentes na vida das pessoas, esta revelação levanta novamente a discussão sobre medidas de regulação. Embora o contexto epidémico vivido desde início de 2020 tenha levado a um aumento das relações sociais através de plataformas online, tais como plataformas de encontros online, esta mudança já podia ser observada muito antes.

Saúde mental e tráfico humano

Os relatórios divulgados revelam implicações para a segurança infantil e maior risco de tráfico humano. Um dos estudos conclui que 13% das adolescentes afirmam que o Instagram, outra plataforma digital que pertence ao Facebook, agrava pensamentos suicidas, enquanto 17% das adolescentes afirmam que agrava distúrbios alimentares. Em entrevista à CBS, no programa “60 minutos”, Frances Haugen salientou como a investigação do próprio Facebook mostra como o Instagram não só é perigoso para os adolescentes, como na verdade prejudica-os.

A Ordem dos Psicólogos em Portugal, num documento sobre ciber-comportamentos e riscos de ciber-dependência, alerta que os riscos da utilização excessiva das tecnologias de informação e comunicação, como as plataformas digitais das redes sociais, não devem ser ignorados. O documento, organizado em três subsecções (prevenção do risco, promoção de comportamentos online saudáveis e intervenção em casos de ciber-dependência), estabelece recomendações e procura aumentar a literacia e conhecimento sobre os riscos inerentes às aplicações digitais, que podem conduzir à “redução do interesse em situações do quotidiano, o que naturalmente acarreta consequências emocionais, familiares, sociais e profissionais ou académicas”.

Qual a resposta dos Governos?

Uma das maiores dificuldades por parte dos legisladores e reguladores mundiais está em conseguir acompanhar o ritmo de inovação das novas tecnologias. Acaba por ser quase inevitável que as leis estejam muitas vezes desatualizadas face às novas realidades digitais e à própria evolução da forma como as populações interagem com a tecnologia.

Também o tabaco, por exemplo, não era regulado quando começou por ser comercializado, uma vez que as suas propriedades nocivas não eram conhecidas. Frances Haugen, em declaração ao Senado dos Estados Unidos, faz essa mesma comparação, assim como referência à primeira vez que o governo americano exigiu que os carros seriam obrigados a ter cintos de segurança. Esta dificuldade legislar novidades do mercado não é, portanto, nova. A ex-funcionária do Facebook implorou que o governo americano dê os primeiros passos em medidas de regulação de plataformas online como o Facebook ou Instagram.

Um dos primeiros mentores de Mark Zuckerberg, Roger McNamee acusou os executivos do Facebook de priorizarem os lucros acima da segurança. Outra voz crítica da rede social é a de Jessica González, co-CEO da Free Press e cofundadora da Change the Terms, uma coligação com o objetivo de reduzir o ódio online, disse que a revelação destes documentos mostra como empresas como o Facebook, e o sector das redes sociais em geral, é incapaz de se autorregular, cabendo aos governos essa responsabilidade. Na China, por exemplo, aumentaram, recentemente, as restrições do uso de plataformas digitais por parte dos jovens com menos de 18 anos. O governo chinês limitou o número de horas semanais em que os jovens podem jogar online para 3.

Num mundo cada vez mais globalizado em que o acesso à Internet é dificilmente restringido, Portugal e os parceiros da União Europeia terão de colaborar de forma a encontrar não só as formas mais eficientes de prevenção dos riscos das plataformas digitais como também a promoção de práticas saudáveis, uma vez que as vantagens e benefícios da era digital tornam imprescindível o uso de muitas das novas tecnologias.

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Efigénia Marques

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